Porque é tão difícil sair do armário?

Uuuuuui! (risos)

Estes dias, quando eu e minha mãe lavávamos a garagem, o Gustavo perguntou, assim do nada, com a inocência de criança que espero que as crianças dos dias de hoje ainda tenham:

– Ni, você acredita em Deus?

Imediatamente minha mãe exclama, talvez num reflexo involuntário dos músculos do seu rosto e de suas cordas vocais:

– Mas é claro que ele acredita! Não fala isso não, menino.

E ele insistiu, mas confesso que respondi com outra pergunta, de forma a não deixar claro nem que sim nem que não, embora ele tenha feito esta pergunta por já saber a resposta. Mas só idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.

Faço parte de um grupo que Richard Dawkins chama de “ateus que não saíram do armário”. Normalmente pessoas de família muito religiosa e que tem dificuldade em contar aos pais que não acreditam na mesma coisa que eles acreditam. São aqueles que fazem com que estatísticas digam que a população dos “sem-religião” seja maior do que as dos que se denominam efetivamente ateus.

São quase sempre aqueles que disfarçam seu receio – ou mesmo medo – de “saírem do armário” com argumentos do tipo “não preciso ficar dizendo pra todo mundo minha religiosidade”. Não preciso sair pelas ruas gritando como a ideia de seres divinos tem degradado a vida da espécie humana e como o mundo poderia ser algo muito melhor se parássemos de olhar para cima (e para baixo) e olhássemos para frente, percebendo o quão maravilhoso é o mundo em que vivemos. Não, não há fadas no jardim.

Eu preciso mesmo disso? Não posso simplesmente “ficar na minha”? Afinal não estou causando mal ou bem pra ninguém. Estou inclusive evitando confusão (ateus declarados frequentemente são vítimas de olhares tortos ou coisas mais graves).

(…)

Como com quase todo mundo, tudo começou na adolescência. Minha família nunca foi religiosa. Meus pais nunca foram severos. Embora sejam crentes em seres superiores, não vão à igreja. E nunca nos obrigaram a ir também. Nunca rezamos à mesa. Enfim, eu, adolescente, não tive motivos para me revoltar.

Fiz catequese durante uns três anos, fiz primeira comunhão, fui batizado aos treze anos (uhuhl! Limbo nunca mais!), e todo este blá-blá-blá. Mas sinto que aquela ideia de deus nunca tenha entrado na minha cabeça.

Sim, na catequese nunca fui um bom aluno. Não lembrava as orações. Pai Nosso ou Ave Maria? Nunca entendi a “letra” daquelas rezas, e quanto mais tentava entender, menos conseguia. Fé e racionalidade não combinam, aprendi isso.

Uma das primeiras oportunidades que tive de questionar divino foi talvez na sexta série, aos doze anos. Lembro até hoje, mas não muito bem dos detalhes. Aula de história, professor Michel. Não lembro o que estava acontecendo, mas ele falou uma coisa que me fez pensar:

“… (reticências para indicar que não me lembro do contexto) mas é claro que deus não está preocupado com estas coisas pequenas”, ou algo assim.

Isso abalou minha noção de deus omnipresente, omnisciente, omnipotente (O³). Sei que não ficará muito claro para vocês, talvez nem seja muito para mim hoje, mas foi um choque brusco.

A partir daí passei a “conjecturar” sobre as formas da existência de deus. Talvez por um tempo eu tenha sido, talvez para contrariar a ideia de um deus “encarnado”, em forma de ser, um panteísta. A ideia de um deus em todo lugar me foi agradável. Um deus que está em todo lugar, um deus que é todo lugar. Todos nós como parte de um único deus, um único universo. Dá uma ideia de união, que eu retomei, de certa forma (mas sem a noção de deus), nos últimos tempos.

Como talvez toda criança curiosa, que gosta mais de prestar atenção em seus pensamentos do que no mundo a sua volta (o que faz com que sejamos considerados introvertidos, tímidos), tais ideias foram sendo lapidadas em minha mente.

Quando um dia percebi que não acreditava mais em deus. Não foi um choque. Não foi um momento de epifania. Simplesmente percebi. Não chorei, não saí gritando aos quatro ventos. Não xinguei meus pais por acreditarem em tal estupidez. Não tentei os convencer a não acreditar naquilo que acreditavam.

Segui minha vida normalmente. Que diferença acreditar ou não em fadas no jardim faria em minha vida?

Nisso já estava no ensino médio. Nas conversas entre os colegas, já deixava claro para eles que eu era ateu, simplesmente porque eles chegavam a perguntar (não, eu não andava com camisetas com inscrições do tipo “Fuck You Jesus”). Isso nunca foi realmente um problema, já que um dos meus melhores amigos é Espírita, inclusive, e a maioria deles ali eram católicos.

Não sei se foi só comigo, mas quando eu realmente parei para pensar sobre as consequências da inexistência dum deus que a coisa ficou mais complicada, e ainda com a “enxurrada” de outras coisas que acontecem na vida de um jovem.

Aí vieram as “crises existenciais”, talvez consequência da transição da ideia do “sentido da vida”, como algo feito por um criador com um objetivo (, etc.) para uma existência sem um objetivo definido. Um breve concentrado de tristeza e melancolia para apimentar um pouco as coisas (ajudando a abandonar o curso que eu havia iniciado na faculdade), que logo foi percebido pelos pais e pela irmã estudante de psicologia e a recomendação de procurar um psicólogo.

Na psicóloga, ouvi a pior coisa que poderia ter ouvido da palavra de um profissional: “Você precisa de deus”. Ah, vai tomar no… Eu precisava de uma psicóloga, não de uma missionária.

Devia haver uma maneira melhor de resolver aquilo. E creio que tenha havido.

(…)

Tenho lido muito a respeito destes assuntos nos últimos anos. Acabei de ler um livro intitulado “O Gene de Deus”, de Dean Hamer. Nele o autor defende a ideia de que base a crença em deus está codificada em nossos genes. Um livro interessante, embora fica escancarado quase sempre a crença do autor em seres superiores, e isto acaba influenciando alguns trechos do livro. E o mais engraçado é que ele foi financiado pela Fundação Templeton, que tem como objetivo aproximar ciência e religião, e esta fundação é um declaradamente odiada por outro biólogo, Richard Dawkins, que defende que a religião é um mal cultural.  Acho que todo ateu deve ter lido Deus, um Delírio. Pena que são os crentes que deveriam lê-lo.

Acho que todo ateu é fã de Carl Sagan, uma das mais brilhantes mentes do século passado. Sagan era um ateu convicto, e biólogo por formação. Recomendo fortemente que todos leiam seus escritos.

(…)

A expressão “sair do armário” é normalmente utilizadas para dizer que uma pessoa declarou ao mundo que é homossexual. Homossexuais nos dias de hoje ainda sofrem muito preconceito, e dizer às pessoas sua sexualidade ou pelo menos não precisar escondê-la as faz sentir que podem viver melhor suas vidas.

No sentido empregado neste texto, sair do armário significa dizer aos pais e conhecidos sobre sua opção religiosa, tentar convencê-loa a não tentar nos converter. Afinal, como diz mesmo Dawkins, se deus realmente existir, ele (ele, o homem barbudo, ué) certamente prefere pessoas céticas a ponto de questionar sua existência a simplesmente acreditar pelo medo de ir pro inferno. hauahuahauhauah

Adoro uma expressão de um outro blog que também está aqui no wordpress.com: “Ateu, Graças a Deus“.

(…)

Ah sim, esqueci de falar do Gustavo. O Gustavo tem só 11 anos e já passou por momentos ruins em sua vida, como a morte trágica do seu pai. Mas é uma criança forte. Algumas vezes temos umas conversas longas sobre a vida, o universo e tudo mais, e acho importante que ele se torne, desde hoje, uma pessoa mais cética, que não aceite qualquer ideia besta que tentem fazê-lo acreditar. Não quero falar para ele “Gustavo, deus não existe”. Quero que ele perceba por si próprio a não necessidade de deus, e que isso faça da vida dele melhor.

Não quero lhe dar respostas. Ele vive me fazendo perguntas, e acabo respondendo com outras perguntas (como todo idiota). Estes dias ele veio, assim do nada “Mas se deus criou o mundo, quem foi é que criou deus?”. E eu lá vou saber, moleque? :-)

Para finalizar, um videozinho, para lembrar a ideia de sair do armário:

4 Comments

  1. marcos
    Posted fevereiro 19, 2010 at 23:35 | Permalink

    Religião é obra dos homens, muito sangue ja foi derramado em nome disso.

    [Jesus disse] “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.”

    A palavra dEle é o que importa.

    abs!

  2. Maycon
    Posted fevereiro 20, 2010 at 2:04 | Permalink

    A seu ateu maldito… AhuAahuAhuAHU

    Tbm tenho esse problema (será que é um problema?) de não acreditar…

  3. Julia
    Posted junho 6, 2010 at 1:02 | Permalink

    Muito bom esse post.
    Deus criou o homem ou o homem criou deus?

    A vida não tem sentido, faça o melhor com a sua!

    Abraços.

  4. Posted agosto 26, 2012 at 15:23 | Permalink

    Vc disse que religiosidade e racionaliddade não combinam. Pois eu te garanto que combinam. Estude o espiritismo Kardecista e duvido q continue com essa idéa.

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