Publicou como OpenSource, alguém da Índia está ganhando dinheiro e o cara não levou nenhum tostão para casa

Originalmente um e-mail que mandei para a lista de discussão do meu curso na faculdade. E-mail clichê, mas faz tempo que não escrevo sobre coisas relacionadas à Linux e Software Livre.

“Hoje fui avisado por um usuário de um projeto Open Source, que demorei três meses para construir, que uma empresa na Índia esta vendendo o projeto como um produto deles. E que eu ralei e publiquei lindamente com a idéia de código livre não ganhei nada. VDM”

Fonte: http://vidademerda.com.br/vdm/10434

Hoje há muita discussão sobre software livre, open source, etc. Esta notícia estava linkada num artigo que saiu hoje no site meiobit, entitulada “O Lado Canalha do Software Livre”, como uma crítica à violação dos direitos autorais como um efeito colateral do Open Source. Obviamente o autor estava enganado, mas quem conhece a peça (Carlos Cardoso), sabe que ele escreve com a única finalidade de provocar, fazer as pessoas lerem, comentarem, com única finalidade de obter cliques de mouse e ganhar dinheiro. Mas não é este o objetivo deste e-mail.

O artigo está em: http://meiobit.com/meio-bit/open-source/o-lado-canalha-do-opensource

Voltando ao primeiro link, vê-se mais abaixo vários comentários:

“Da próxima vez registre e ganhe dinheiro, pq se vc não fizer, um mala o fará.”

“Po, processa os caras, open source não quer dizer que você não tenha direitos sobre o código [2] JÁ OUVIU FALAR DE GPL, SUA MULA? Vá estudar licenças antes de saiu fazendo projetos!!!”

“E viva o open source! Bem feito. Já que trabahou de graça agora não reclame.”

“nao dá pra processar… ctz que os caras mudaram nomes de variaveis, constantes, etc… f**** tudo”

“demorou pra processá-los… open source te dá uma série de direitos, mané!!! e mudar variáveis e constantes nao muda a lógica do código, para os desinformados ae…”

“se você fez open source, tá reclamando do que? se você se f****, foi por mérito próprio, meus parabéns.”

“ahuahauh a realmente… pergunta como vc sobrevive($$) de open source?? vc é rico?? pensa que vai mudar o mundo com a sua atitude?? os empresarios adoram open source (dos outros). E vc devia ter usado Copy Right… tisc…tisc… BURRO!!!”

“quem manda ser babaca… open source o car****”

(Dentre outros, disponíveis no Link)

No texto não ficou claro qual projeto era, e principalmente, qual licença o cara adotou. O que ficou implícito é que o programador desenvolveu um software, licenciou como software livre (discutido mais tarde),  uma empresa viu seu projeto, e passou a usar para um fim específico, não dando os devidos créditos ao autor.

Agora falando das licenças, talvez a parte mais controversa da idéia do Open Source. Há pelo menos um ponto que gera divergências no mundo do software livre: o conceito do copyleft.

Ao contrário do que muitos pensam, Richard Stallman não  criou o software livre. Como ele mesmo diz antes do software proprietário o software era livre. Ele só formalizou a coisa, criou um documento que inclusive hoje tem validade legal em alguns países, adicionou algumas cláusulas que visam proteger o desenvolvedor, e pronto. Aliás, pronto não. Foi muito mais, mas na parte “conceitual” não foi muito mais que isso.

Um dos pontos que ele investe é o tal do copyleft. Copyleft é uma sátira ao Copyright. Não são “Direitos Reservados”, mas “Esquerdos Reservados”. O copyleft baseia-se em tudo que você NÃO pode fazer. Já o Copyleft baseia-se em tudo que você PODE fazer.

O Copyleft exige que, se você criou algo aberto à modificação segundo o conceito de Stallman de livre, este algo sempre será livre. É a garantia da continuidade da liberdade. A maior licença de software com copyleft é a GPL (hoje até a versão 3), ou General Public Licence. A maioria dos softwares livres hoje a utilizam.

O Copyleft faz com que a GPL seja considerada viral, Ou seja, se há uma maçã “contaminada” com a GPL num cesto, todo o cesto apodrecerá, ou seja, se você usa algum componente GPL no seu sistema, todo seu sistema deverá ser GPL.

Aí entra o outro lado, o pessoal que vai contra o Copyleft, alegando que não há liberdade se não se pode escolher que licença adotar em um código  com copyleft.

Por isso não existe “uma comunidade”, ao contrário do que muitos pensam. Existem várias comunidades e várias correntes dentro do Software Livre.

A maioria dos que não adotam licenças com copyleft (tipicamente BSD’s) são aqueles com fins comerciais. Tanto que a Free Software Fundation não os considera software livres, mas softwares com código aberto somente.

Um projeto bastante famoso que não adota o copyleft mas que é um software livre é o Eclipse. Hoje plataformas como Aptana Studio, Zend Studio, Delphi (Sim, Delphi!) são baseadas no Eclipse. E são ferramentas comerciais, proprietárias e pagas. O Eclipse continua sendo open source, mas isto não exige que o que seja baseado nele também o seja.

Para Stallman, licenças do tipo são consideradas não livres, mas libertinas. Liberdade != Libertinagem.

Vários grandes projetos hoje que adotam licenças como a familia BSD, MIT não possuem copyleft.  A própria Apple, criadora do Macintosh, usou parte do código fonte do sistema Operacional FreeBSD para criar o kernel do seu sistema OS X. E como todos sabem, trata-se de um sistema proprietário, embora boa parte dele seja open source, mas não por “obrigação”, mas por não ser considerado essencial pela Apple.

A própria Apple usa muitos componentes GPL, mas o sistema todo não é GPL, já que há algumas regras que definem o que é “estar no mesmo cesto”.

Mas, independente de haver copyleft ou não, mesmo nas licenças mais simples como a BSD de 4 clausulas, é exigido que a autoria do código sempre esteja presente. Ou seja, eu posso usar um código seu para o que eu quiser, mas eu nunca poderei dizer: “Hey, eu que escrevi isso”. O Open Source baseia-se quase que unicamente nos créditos, no autor. Tanto que não posso criar um software e chamá-lo de Linux, pois Linux é marca registrada de Linus Torvalds. Linus pode me processar :-)

Isso permite que existam vários projetos BASEADOS em Linux, mas que não podem legalmente se chamar Linux e tomar este nome para si, como as distribuições Linux, o Android, o WebOS da Palm, etc.

Para aqueles que acham que software livre é coisa de comunista que come criancinhas (no sentido literal) no almoço, saibam que das licenças (http://www.fsf.org/licensing/licenses/) que a Free Software Fundation (cujo presidente é o mesmo louco Stallman) consideram como Open Source, sendo ou não compatíveis com a GPL, há coisas do tipo:

Microsoft Public Licence (http://www.microsoft.com/opensource/licenses.mspx#Ms-PL)

Nokia Open Source Licence (http://opensource.org/licenses/nokia.html)

Sun Public Licence (http://java.sun.com/spl.html)

Yahoo! Public Licence (http://info.yahoo.com/legal/us/yahoo/publiclicense/publiclicense-1813.html)

NASA Open Source Agreement (http://opensource.arc.nasa.gov/static/opensource/site/docs/NASA_Open_Source_Agreement_1.3.txt)

Ou seja, nomes bem pequenos. Como a Microsoft, que possui muitas licenças abertas usam ou não copyleft. Mas no caso da MS que produz somente software – livre ou não – baseado em tecnologias proprietárias dela mesma (Windows, .NET, etc), que diferença há em ser software livre ou não? Afinal de que adianta um software GPL escrito em Delphi ou que usa .NET, se estou preso à plataformas proprietárias? hauahauahuah

Gostaria de recomendar que todos leiam uma reportagem com Jon “Maddog” Hall, presidente da Linux Foundation:
http://www.youtube.com/watch?v=w5Eu7SiIiRQ

E, por falar em Linux Foundation, várias empresas como VIA e ARM hoje são parceiras desta instituição. Para quem não sabe ARM é uma coisinha que existe dentro de boa parte dos celulares, roteadores, televisões hoje em dia. Sim, boa parte destes sistemas com processadores ARM rodando Linux, mas deixa pra lá :-)

Qual a finalidade deste e-mail? Sinceramente não sei. Sou um usuário Linux há quase 5 anos, não sou desenvolvedor de software livre algum, embora me beneficie de muitos projetos – todos abertos, com copyleft ou não – que admiro. Sou um entusiasta do software livre e vejo que está mais que evidente que se trata de uma tendencia de mercado (embora eu particularmente odeie tendencias de mercado), principalmente nestes tempos de computação em nuvem (conhecem o google? Sim, ele quer dominar o mundo, e usando software livre. Cuidado, muito cuidado! :-) ).

Hoje vejo muita gente, principalmente de colegas em sala de aula, com um preconceito muito grande em relação ao software livre, preconceito equivalente àqueles vistos nos comentários da primeira notícia.

Vejo que a humanidade está dependendo cada vez mais dos computadores e principalmente do componente software. Não podemos tratar o software como “mais uma caixinha”. Ao meu ver trata-se principalmente mas não exclusivamente do futuro da humanidade e da maneira como as economias nacionais se desenvolvem. Hoje a maioria da infirmação e conhecimento produzidos está em formato digital. Formato que só chega a nós  por meio de um software. Não se trata somente de uma caixinha numa prateleira de supermercado. Trata-se de como tratamos o conhecimento que produzimos. Sim, a única coisa que o Homo Sapiens produziu, desde que desceu da árvore (tá, não foi o HS que desceu das árvores :-)) produziu no planeta Terra foi Conhecimento. Nada mais. A massa e do planeta continua a mesma.

– Internet Ubiqua
– Padrões Abertos
– Cooperatividade na era digital
– E-Lixo

São temas cada mais mais discutidos por instituições civis e governamentais. E acredito que o software livre/open source tenha muito a ver com tudo isso.

Mas me pergunto? Como fazer para que casos como estes que ilustram este e-mail não aconteçam novamente? Não ficou claro qual licença de software o autor utilizou, mas provavelmente foi uma sem copyleft. Neste caso não há muito o que fazer. Ele fez de forma consentida. Se ele não queria que isso seu software fosse utilizado de forma proprietária, que usasse o conceito de copyleft.

Isto não obrigaria a empresa da Índia a não ganhar dinheiro. Todos os grandes nomes do software livre incentivam as pessoas a ganharem dinheiro. Mas obrigaria a empresa a manter o código aberto, com todas as modificações feitas, e o próprio autor original se beneficiaria disso, podendo ganhar dinheiro comercializando seu software no Brasil (ou em outros lugares, a escolha é dele). Ele só não pode exigir que a empresa mande um milhão de reais para sua conta bancária. Não há licença de software que eu conheça que exige isso :-)

Bom final de semana a todos! Que a força do GNU esteja com vocês :-)

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