Eu, estereótipo de mim mesmo p. II: Em que geração vivemos?

>> Texto escrito em vários tempos, mas só agora publicado <<

Em meados da década de 80 Renato Russo cantou, à frente da Legião Urbana, que vivia na “Geração Coca-Cola”.
Esta geração era marcada pelo consumismo descontrolado e pela alienação causada pela propaganda.

Por isso lhe pergunto: em que geração vivemos? Sendo uma geração algo em torno de 25~30 anos, provavelmente não estamos mais na tal da geração Coca Cola. Que aspecto marca a juventude da primeira década deste século, deste milênio?

Criticar o consumismo descontrolado já virou clichê. Criticar as mídias de comunicação em massa também.

A Coca Cola continua atuante, talvez até mais que antes. A tecnologia mudou, mas a idéia é a mesma. Mas poucas pessoas dão bola para quem critica a Coca-Cola, de tão chato que isso virou.

Que aspecto marca os jovens de hoje? A aparente sensação de que a tecnologia os livrará de todos os males e resolverá todos os seus problemas. Não sei de onde surgiu isto, mas estamos imersos, de forma nunca antes visto: computadores, internet, celulares, câmeras de vigilância, televisão interativa e tudo mais.

Não estou dizendo aqui que estas tecnologias são ruins. Somos a sociedade da informação. Eu inclusive faço parte disso, já que sou universitário e faço um curso na área de tecnologia. Ninguém poderia dizer “Hey cara! Larga de ser tecnófobo!”. Acho a tecnologia da informação atual muito importante. Mas não é o suficiente. Ela não resolverá nenhum dos nossos problemas. Ela nos permite nos comunicarmos com uma pessoa do outro lado do mundo, mas ainda temos dificuldade em conversarmos com quem mora ao lado (e não é a tecnologia que resolverá isso), ela nos permite nos sentirmos mais seguros (câmeras de vigilância, sistemas de rastreamento) mas não nos permite entendermos porque é que nos sentimos tão inseguros. Nos traz novas experiência e novos prazeres (games, filmes, interatividade com o digital) mas não nos permite que tenhamos prazer com as coisas simples e que muitas vezes nos passam despercebidas. Nos provê ferramentas de administração e otimização do tempo, mas não nos explica porque diabos precisamos fazer tantas coisas ao mesmo tempo!

Talvez você tenha razão ao gritar “Você é feio e bobo!” quando ouve alguém com as mesmas reclamações com relação à tecnologia. Sempre haverá quem reclame. Ora por prejudicar aqueles que produzem ou distribuem a informação (direitos autorais, etc), ora por a tecnologia ser algo do mal (religiões em geral). Ou seja lá o que for.

Sou a favor da tecnologia como ferramenta de democratização da informação (e também, como a maioria dos usuários de software livre, tenho uma visão a favor de uma “reforma” tanto legal quanto cultural do copyright, patentes e da propriedade intelectual). E não acho que a tecnologia atual seja “coisa do demônio”. No máximo o site do Vaticano e dos adoradores de Satã. Mas o resto é coisa terrena mesmo :-)

Mas me incomodo com a extrema valorização que damos ao tecnológico, ao cibernético, ao artificial, ao produzido em massa! E sinto que isto está tendo um efeito prejudicial nos nossos jovens (falando assim pareço um velho de 80 anos, não?).

Estão se tornando cada vez mais comuns – no mundo todo – casos de violência entre crianças e adolescentes gravadas… por eles mesmos (!?) para colocarem na Internet (carece de fontes). Hoje é extremamente fácil fazer uma gravação vídeo de de razoável qualidade. Muitos celulares baratos já contam com este recurso. Junte isso à facilidade em expor materiais na Internet e temos… Nada de ruim. Em tese é algo bom, pois permitiu a tal da democratização dos meios de produção. Mas porque tem se multiplicado o número de casos de jovens que gravam brigas e cenas de violência gratuita para exporem na Internet?

Não estou questionando os meios, mas sim o papel que o “tecnológico” tomou em nossas vidas, e principalmente entre os mais jovens.

Criamos em nossas mentes – ou criaram? – a idéia do extremamente tecnológico como destinado a ser parte de nós. Mas não é! Eu não preciso de boa parte das parafernálias tecnológicas que me obrigam a adquirir! Nem muito menos acredito que no futuro precisarei de microchips implantados em meu cérebro ou na minha pele.

Nos incentivam a trocar de celular, de computador a cada dois meses. Mas fazem de tudo para não sabermos das conseqüências desta troca insana. Digo isso tanto do ponto de vista cultural quanto ecológico. Qualquer reclamação e você é tachado de “ecochato”. “Entre pro Greenpeace então!”.

Ou seria esta a era da informação fragmentada? Temos acesso instantâneo à tanta coisa que não conseguimos fixar nenhuma delas. Somente “pedaços”. Pegamos pedaços de uma coisa, pedaços de outra coisa e formamos nossa visão de mundo com base nisto. Vemos pedaços do mundo. Mas nunca chegamos perto do mundo todo.

“Mas nossos pais não tiveram nem isso!”. Sim! Aqueles que viveram antes de nós quase sempre nem isso tinham. Muitas vezes passavam a vida inteira e não tinham acesso à 10% do que temos hoje.

Mas uma vez não estou dizendo que eles viviam melhor ou pior que nós, já que “são outros tempos”. Como disse antes e vou dizer sempre é que não estou questionando a tecnologia, mas questionando… nós. Você já parou para questionar?

Um vídeo que mostra esta questão é um chamado “Did You Know?”, que exibo abaixo:

Em resumo: toda tecnologia é benéfica se levar em conta que está servindo a humanos, não e nunca a máquinas. Nenhuma tecnologia é benéfica se busca descaracterizar e diminuir o ser humano só porque “é assim que as coisas tendem a ser”. As coisas tendem a ser da maneira como a construímos, e não segundo regras pré-estabelecidas ou escritas numa pedra.

E é melhor que parar por aqui. (há 8 abas abertas no meu navegador neste momento, o que me faz lembrar da época em que utilizávamos o Internet Explorer e podíamos abrir somente uma página por vez… Bons tempos? Não… :-))

3 Comments

  1. Patola
    Posted abril 6, 2009 at 12:52 | Permalink

    Em resumo: toda tecnologia é benéfica se levar em conta que está servindo a humanos, não e nunca a máquinas. Nenhuma tecnologia é benéfica se busca descaracterizar e diminuir o ser humano só porque “é assim que as coisas tendem a ser”. As coisas tendem a ser da maneira como a construímos, e não segundo regras pré-estabelecidas ou escritas numa pedra.

    Pode dar um exemplo concreto do que está dizendo? Fiquei sem saber e tenho a impressão que talvez você possa estar dando uma de Dom Quixote, combatendo monstros inexistentes que são apenas moinhos de vento.

  2. Posted abril 7, 2009 at 0:31 | Permalink

    Olá Patola, quanto tempo :-)

    De alguma forma eu sabia que você apareceria para me criticar – mesmo que eu procure, e estou conseguindo, extrair algo bom dos teus comentários.

    Não vou te dar um exemplo agora, mas comecei a meditar sobre a questão já há algum tempo.

    A questão principal diz respeito à relação do homem com a máquina. Explico: com a revolução industrial a máquina foi adotada em larga escala ocupando funções que o homem desempenhava.

    Acontece que a grande promessa das máquinas foi: “Com as máquinas as pessoas precisarão trabalhar menos.” E é esta a promessa das máquinas nos dias de hoje.

    Há 100 pessoas numa fábrica. Todo o trabalho principal é operado por pessoas.

    Então instala-se uma máquina capaz de executar a tarefa de 50 pessoas. A teoria diz que as 100 pessoas trabalhariam a metade do tempo e que a maquina trabalharia substituindo o resto do trabalho.

    Mas na realidade – isto não é uma “historinha”? – o que acontece é que 50 pessoas da fábrica são demitidas e as outras 50 continuam trabalhando o mesmo – senão mais – que antes.

    Então em vi frente à duas hipóteses:

    A primeira veio de um documentário chamado Zeitgeist: Addendum: as máquinas vieram para substituir o homem em relação à produção, ao trabalho (em relação à trabalhos físicos). Segundo a idéia cabe a nós nos adaptarmos pois o processo é irreversível e é bom para nós, pois acabará com boa parte dos nossos problemas (inclusive ambientais). A idéia é de um tal de Venus Project, projeto que visa uma revolução – ou revoluções? – em vários aspectos (tem como base, dentre outros, o ateísmo e a anarquia como forma de organização).

    Um tanto utópica a idéia, mas que no documentário parece bastante viável.

    A segunda visão – não era hipótese? – vem da idéia de que a tecnologia deve servir como forma de aumentar a capacidade de produção do homem, não necessariamente com “implantes biônicos”, como planejam muitos. Baseia-se no pensamento: “se povos antigos conseguiam construir obras monumentais de extrema complexidade e engenhosidade sem a tecnologia que temos hoje, porque diabos não conseguimos fazer o que eles faziam?”. Vi a idéia num livro que já citei aqui no blog chamado “Small is Beautiful”, da década de 60 ou 70.

    Na idéia do autor não adianta uma produção que não sirva para consumo local e que não empregue as pessoas no local onde está instalada a indústria em questão. Pois é extremamente comum – era naquela época e hoje ainda é, embora as coisas tenham mudado um pouco, principalmente na área de telecomunicações – que grandes empresas se instalam em países ditos pobres e até empregam algumas pessoas da região, mas não geram riqueza nesta região, isto quando acontece o contrário, principalmente quando se formam grande metrópoles – megalópoles – ao redor destes centros industriais.

    Para o autor toda riqueza deve servir primeiramente para fins locais e só depois para “exportação”. Mas o que isso tem mesmo a ver com a sua questão mesmo? Não sei, tenho uma dificuldade real em ser direto e objetivo, mas só espero que compreenda as possíveis relações entre esta questão e a questão tecnológica que tentei abordar.

    Me vi frente às duas idéias aparentemente opostas e que me pareceram válidas (recomendo que leia o livro e que assista o documentário, pois é possível que eu não consiga exprimir corretamente a idéia dos autores). Mas qual das duas exprime a realidade?

    Acabei por me embananar todo, fugindo do assunto e não respondendo à sua questão, confesso.

    Mas quixotesco… Valeu pelo adjetivo.

    Se achou o último parágrafo ruim, pode desconsiderá-lo, pois concordo que muita coisa no texto ficou sem nexo, já que ele foi construído aos poucos e não passou por uma apurada revisão de uma banca com cinco doutorados… :-)

  3. Patola
    Posted abril 9, 2009 at 23:39 | Permalink

    Hummm, pelo jeito você está bastante na defensiva com minhas colocações, não é mesmo? Que pena, talvez isso impeça que entenda bem o que quero dizer, ainda que queira “me dar uma chance” ao “extrair algo de bom dos meus comentários”. Veja, meu amigo, a razão de eu ter sido tão crítico antes com suas colocações é que você reproduziu argumentos falaciosos de uns dos maiores inimigos atuais da ciência, os criacionistas. E aí, sim, você estava pedindo pra ser criticado.

    De qualquer jeito, voltando ao assunto, sim, acredito que você deu voltas demais para responder, mas entendi que o exemplo da revolução industrial, de máquinas obrigando 50 pessoas a trabalhar mais, poderia ser usado. Mas isso não é servir a máquinas, e sim aos patrões – que por malvados que sejam, ainda são seres humanos.

    Eu acho que essa visão de nós, “seres humanos”, como uma turma unida e consistente é que está errada, como o próprio exemplo dos patrões mostra. A razão de eles usarem ou não máquinas não tem nada a ver com adoração pela tecnologia e sim para ganhar mais dinheiro, independentemente de se isso traz progresso ou não, se representa uma epifania ou um desgaste, ou seja, totalmente alheios à filosofia subjacente.

    Dito isto, o seu “da maneira como a construímos” estaria equivocado: não somos “nós” que a construímos, é uma parcela que tem poder para isso e seus próprios interesses, o que caracteriza o uso da tecnologia como um problema/tópico social. E é verdade, é realmente social. Aliás, isso evidencia que para mudar o modo como a tecnologia é usada você tem obrigatoriamente que mexer nas relações de poder, não conclamar as pessoas a isso pois seria absolutamente ineficaz.

    Mas isso não faz da tecnologia algo criado para as máquinas, que é, no meu entendimento, o que você diz.

    Agora sou eu que não sei se deixei meu ponto claro.

    Como última observação: eu acredito na viabilidade e necessidade de incrementos tecnológicos para nosso organismo, talvez até implantes mesmo. Como estudioso da evolução, entendo muitas das restrições de desenvolvimento que temos e julgo que, para o objetivo de uma vida feliz, plena e satisfatória, nosso organismo é sub-ótimo, podendo e devendo ser aprimorado da maneira que acharmos conveniente.

Comente

Required fields are marked *

*
*

%d blogueiros gostam disto: