Tapetes urbanos: Gato morto e esmagado, de olhos cilindricos e esbugalhados

Foi no caminho de ida para UEM. Ante-ontem.

Eu de bicicleta vejo algo pulando no asfalto, saindo de baixo da roda de um caminhão. De longe parecia até um pedaço de pano ao vento, mesmo não estando ventando no momento.

O motorista do caminhão nem percebe. Nunca percebem.

Me aproximo e ainda está respirando.

A cabeça do gato foi esmagada e seu olho direito projetado para fora do crânio. É engraçado o formato dos olhos dos gatos. São meio que cilíndricos, como uma luneta. Vai ver é por isso que enxergam tão bem. Não havia sangue algum. Sua língua estava para fora, como se estivesse cansado. Seu corpo ainda tinha espasmos.

Fiquei lá observando a morte do animal por um tempo, no meio da rua.

Até que um rapaz mais ou menos da minha idade – se não me engano eu conhecia ele, talvez do primário, mas não me lembro ao certo, minha memória não é a melhor, confesso – de moto para, levanta o capacete e diz com aquela cara: “É. O pior é que esse gato era meu… Mas já era”.

“É… É foda”, respondi, já que não achei algo mais inteligente para falar. E simplesmente continuei minha vida.

O motoqueiro também continuou a sua.

Mais tarde, na volta, passei novamente pelo lugar e o gato continuava no mesmo lugar. Na verdade um pouco mais para trás, já que outro caminhão passou por cima de seu corpo novamente, e parou logo à frente para trocar um pneu.

No outro dia de manhã já não estava ali.

Porque este post? Não sei. Me pergunto porque ficamos tão passivos e tratamos de forma banal coisas incríveis como a morte. Presenciei o fim-do-mundo, o próprio apocalipse para aquele animal como se fosse qualquer coisa. Serei eu insensível? Provavelmente. Mas acredito que muito mais do qualquer um que nem tenha percebido a morte do gato ou que tenha tratado como qualquer outra coisa.

Já perdi gatos de várias formas: desde atropelados, estraçalhados por cachorros, de doença, até teve um que eu mesmo matei, mas aí é uma história que vale uma discussão inteira para que eu não seja mau ou pré-julgado…

Me lembro de uma vez, há uns dois anos, em que apareceu um cachorro morto no meio de uma movimentada avenida daqui da cidade. Provavelmente tentou atravessar a rua num momento indevido, já que lá passa muitos caminhões principalmente, e como sabemos o camarada que está dentro de um caminhão carregado pode passar por cima de uma pessoa e nem perceber. Quanto mais um cachorro…

E o cachorro estava lá, estendido no meio da rua. Passou dias lá. Todos passavam como se nada houvesse.

Depois de um tempo o negócio passou a feder. Mas mesmo assim ninguém ligava. Continuava lá. Mais tempo ainda e, de tanto carro que passou por ele, nem de longe lembrava a forma de um cachorro.

Percebi que ele se tornou uma pate da paisagem. Era…. um tapete urbano! Ele enfeitava e aromatizava a cidade.

Hoje eu percebo que o observador não é nada mais que um ator metido a besta.

Com o tempo e rodas passando pelo local, o tapete foi sumindo aos poucos. E eu passava todos os dias para ver como estava.

A estas alturas nem fedia mais.

Aí um dia ele sumiu.

2 Comments

  1. Patola
    Posted março 13, 2009 at 23:18 | Permalink

    Tocante. Imediatamente depois de ler seu post fui ver se meu gato de estimação estava bem, haha…

    As pessoas são mesmo indiferentes, apáticas. Mesmo com bichos bonitinhos como os gatos. Foda.

  2. Déborah Noemi
    Posted agosto 5, 2014 at 19:44 | Permalink

    Bem, eu acabei de matar um gato. Não por querer, mas porque ele correu em direção ao carro e a roda passou por cima da cabeça dele. Na realidade eu nem vi quando ele veio pra cima do carro. Só vi pelo retrovisor um gatinho preto pulando de uma maneira estranha, tipo se “rebolando” no chão. Imediatamente eu parei e pedi pra minha mãe ir olhar. A cabeça estava esmagada e um olho pra fora. Confesso que nem tive coragem de ir vê-lo e estou até agora chorando. Inclusive, cheguei a este site porque vim pesquisar no Google e coloquei as palavras gato, cabeça esmagada e dor. Me sinto meio que idiota de fazer tal pesquisa, pois claro que deve ser uma dor terrível, mas sei lá, fico meio que desesperada em saber que tirei a vida de um ser e que ele tenha sofrido muito antes de morrer. A propósito, eu me importo sim com o fato de ter atropelado um gatinho. Sempre tive medo de atropelar alguém ou algum animal, pois não quero ser responsável pela morte de ninguém. Realmente não sei se vou conseguir superar isso. Espero que sim. Desculpe-me os eventuais erros na escrita ou nas palavras sem sentido, mas estou muito triste para raciocinar. Confesso que não sei o que fazer.

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