Eu, estereótipo de mim mesmo p. I: Flora não acredita em Deus

Ah sim. Não gosto de falar sobre religião, tanto que procuro falar muito pouco, embora goste muito de ouvir sobre.

Este é um post totalmente subjetivo e opinativo, sem qualquer tentativa de se parecer com um texto argumentativo.

Hoje estou aqui para falar sobre… ateísmo.

Já há tempos gostaria de escrever algo do tipo, mas como disse acima, procuro não fazer isto, já que o mundo é um lugar perigoso e para ser queimado na fogueira é “um palito” :-)

Na verdade este é um post bastante extenso onde eu acabo viajando e falando de outras coisas que não religião, mas que para mim foram – e são! –  essenciais na formação da minha consciência de mundo.

O que coloco em questão não é o acreditar ou não num ser superior, mas como isto reflete em nossas vidas. Ou melhor: em minha vida (sim, como diz em algum lugar, este é um blog diarinho).

Os últimos anos têm sido muito importantes para mim, pois me permitiram uma mudança radical na maneira como enxergo o mundo. E acredito que eu tenha mudado para melhor. Não sei quanto, já que é algo que não pode ser verificado de forma quantitativa, mas entenda simplesmente como melhor.

Não gosto de “ismos”. Me lembro de uma professora de história, quando eu estava ainda no ensino médio, que me dizia para desconfiar dos “ismos”. Capitalismo, Socialismo, iluminismo, catolicismo, ateísmo. Era uma professora que fazia os alunos pensarem. Poucas são as que conseguem. Comigo ela conseguia.

Mas o significa “desconfiar dos ‘ismos'”? Os “ismos” definem uma ideologia. Quando dizemos que uma pessoa é “alguma-coisa-ista” reduzimos ela àquilo que a palavra define. Nunca gostei disso, principalmente por achar que somos muito mais complexos para sermos definidos por uma palavra. Gosto da idéia de fazer um “mix” de várias ideologias para ter certeza de que estou pensando por mim mesmo. É complicado, admito.

Mas o texto é sobre aquela idéia de não acreditar em um ente – ou entes – divinos.

Vejo que não é o fato de uma pessoa ser atéia, ser católica, protestante, budista ou sei lá o que for que define – definir é muito ruim! – como ela irá agir. Não estou dizendo que suas crenças não influenciem suas atitudes, mas peguei o costume de enxergar “o outro” como algo além de ele ser “alguma-coisa-ista”.

O quero dizer é que Madre Teresa de Calcutá não foi boa por acreditar em Deus, mas sim que a sua religião foi um “pretexto” para seus atos, assim como de qualquer pessoa, sejam suas ações “boas” ou “ruins”, seja ele Adolf Hitler, Che Guevara, seu vizinho ao lado ou mesmo eu ou você.

Talvez não seja um argumento válido, acredito, mas não estou aqui tentando te convencer, mas somente expondo minhas idéias.

Há um tempo tive uma discussão muito interessante com um professor daqui da UEM. Ao chegar, percebi que a luz ainda não tinha voltado, e do lado de fora do bloco havia várias pessoas, dentre eles uma professora de engenharia de software minha, dois ou três colegas meus e o tal do professor, que não me lembro ao certo o nome, pois era de outro departamento, acho que do Departamento de Educação e logo após dizer seu nome eu já havia me esquecido :-) A conversa iniciou-se entre este último e minha professora, mas logo os alunos, inclusive eu, entraram no meio. A discussão começou pela questão dos jovens de hoje, sobre ordem, seu comportamento, a falta de respeito, etc.

Eu argumentava que a juventude hoje tem uma relativa falta de perspectiva de futuro, que antes não era tão forte – a falta. Digo isso por sentir na pele a coisa, e ter visto pessoas da minha idade se perderem, ao se envolverem com drogas, tráfico e até coisas mais graves, como homicídios. Que bom motivo você daria a um jovem hoje para ele não fazer tudo isto? Sinceramente não sei.

Citei a necessidade que temos em sermos sempre vencedores; num mundo cada vez mais acelerado – porque? – você deve ser mais rápido. Num mundo cada vez menos desumano, você deve ser o mais frio; num mundo cada vez mais materialista, você deve ser o mais rico. Num mundo cada vez mais competitivo, você deve estar em primeiro lugar.

O problema? O problema é que somos mais de seis bilhões nesta bola de pedra girando em torno de uma estrela qualquer num canto de uma certa galáxia ente outras bilhões delas. E até onde eu saiba existe somente UM primeiro lugar, senão não seria primeiro lugar :-)

Entendeu? Criamos um ideal de felicidade impossível no mundo em que vivemos. Nosso ideal de felicidade implica na infelicidade do outro. Felicidade é ter uma casa enorme e um monte de pessoas te servindo: uma empregada doméstica, um motorista particular, um jardineiro. Só aqui vemos uma felicidade implicar na infelicidade de três indivíduos, já que dificilmente alguém que trabalha de motorista tem um motorista particular para si :-)

Nossos jovens – hey, quantos anos eu tenho? – são forçados a tomar este ideal de felicidade. Como não conseguem, assumem que só resta a infelicidade. Não que isto seja conseqüência, mas a perda de valores morais, humanos e éticos (são a mesma coisa?).

O professor, que revelou ser filho de militar, dizia que o maior problema do mundo atual é o relativismo. Mas que relativismo é este de que ele fala? Relatividade Geral, Relatividade Restrita? Einstein? Não, não. É da relatividade de valores, a relatividade moral. A coisa está se aproximando do ponto que que quero chegar, calma.

Como eu ainda não abandonei totalmente meus “ismos”, percebi que não é difícil pensar que, sendo um filho de um militar, o professor tinha muito nítida em sua mente a necessidade de uma ordem, um conjunto de leis e valores inalteráveis e indiscutíveis.

E onde estão estes valores? Sim, meus caros. Em Deus!

Segundo ele e um colega meu, é necessário ter Deus para saber diferenciar entre o “bem” e o “mal”. O bem e o mal são indissociáveis à figura divina.

O que leva esta idéia? Ora, à muitas coisas.

Como poderia EU ser bom ser “ter Deus”?

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Criou-se na cabeça das pessoas a idéia de ateísmo – ismo, ismo! – como algo ruim.

Vamos à lógica: Deus é amor; Deus é a representação do bem.

Uma pessoa atéia, sendo contrária a idéia de Deus, vai contra a idéia do amor; vai contra a idéia do “bem”. Logo, só pode defender o ódio e o mal. Logo, ateísmo é coisa do satanás (se quer rir leia este post do Pérolas Religiosas), que é conhecidamente algo do diabo.

Logo, os ateus são os representantes do diabo na Terra, devendo, portanto, ser convertidos ou exterminados.

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Ultimamente tenho tido muito contato com idéias que considero revolucionárias. Ao menos para mim. Sinto que este ano foi um ano onde, depois de muitas cagadas, me tornei mais humano. Mas de uma maneira que nunca poderia imaginar.  E boa parte destas idéias foram confirmadas pelas idéias de um certo Fritjof Capra, num livro escrito há uns 30 anos atrás.

A idéia de Capra é a de que todos nossos maiores problemas atuais tem como única causa nossa limitada e mecanicista visão do mundo, que não mais se adapta à realidade em que vivemos. Ele propões idéias que acredita que nos ajudem a mudar nossas atitudes. O interessante é que ele não nega as idéias atuais – algumas pessoas entendem que numa mudança o que existe deve ser descartado por ser errado -, mas insiste que tais idéias até tiveram seu papel durante algum tempo. A questão é que hoje o mundo não é como há mil, quinhentos, cem, ou mesmo há cinqüenta anos atrás.

Argumenta que a ciência, que antes tinha como propósito prover uma harmonia entre o homem e a natureza adquiriu o caráter de possibilitar ao homem controlar, dominar, “manter a natureza sob suas rédias”. Cita como causa desta visão o pensamento cartesiano – de Descartes – em que a natureza é propriedade do homem. Portanto podemos tudo para mantermos a natureza sob nosso controle.

Esta é a atitude da ciência atualmente. Aumentamos a “discórdia” entre nós e o mundo – a divisão homem-mundo é somente cultural, não existe nada que nos diferencie dos outros animais que não nossa “racionalidade” – em vez de procurarmos conviver em paz neste planetinha que estamos tornando cada vez mais insuportável. O autor mostra sua idéia do planeta como sendo um grande organismo.

A ciência moderna costuma tratar o organismo como se ele fosse uma máquina. E isto – aff – ao meu ver também tem muitas conseqüências. A principal dela é a idéia de que a visão mecanicista do mundo pode ser fundamentada pela teoria criacionista. Sim! Devo ter fumado muita erva para falar isto.

Explico.

Tirando o fato de que aqueles que fundaram o pensamento mecanicista que é a base da nossa atual ciência eram religiosos fanáticos – leia o Discurso Sobre o Método, do titio Descartes -, a visão mecânica pressupõe que mesmo organismos vivos são nada mais que simples máquinas, e máquinas têm por definição uma programação básica – ou níveis desta -, podem ser divididos em partes – reducionismo – e somando-se o resultado do estudo de cada parte pode-se explicar o todo; pelo caráter anterior, máquinas são coisas estáticas, objetivas. E, principalmente, máquinas precisam de um ente consciente que as crie, juntando peça por peça e as programando.

Tenho em minha frente um computador, e sei que ele não surgiu de um processo natural. Houve alguém – falando “por cima”, que construiu cada pecinha, o programou e fez ele funcionar assim como está funcionando. Captaram? A visão mecanicista PRECISA de Deus.

Dentre outros estudiosos, Capra nos apresenta uma definição diferente de organismo. Antes de entendeu esta definição é necessário “transcender” a definição habitual de evolução. O conceito que nos é apresentado diz que a evolução é um processo no qual uma numa geração de uma espécie somente os mais fortes e adaptados sobrevivem, passando suas características “vencedoras” às gerações futuras. Tal processo é contínuo e diz respeito somente ao indivíduo em questão.

A “nova” visão da evolução não trata somente do indivíduo ou espécie, mas de todo o ambiente. Como assim?

Imagine lá na África os leões e os gnus – já que, como todos sabemos, só há leões na África :-). Os leões mais fortes conseguem melhores caças que os mais fracos. Ao caçar um gnu, este normalmente é o mais fraco do bando. Assim, os gnus mais fortes/rápidos sobrevivem. Os gnus consomem a “grama” das savanas – não eram selvas? -, interferindo diretamente na reprodução destas plantas. Como não temos somente leões, gnus e grama, e nem sempre as relações são de presa/predador, e sabendo que o ecossistema da África está de alguma forma relacionado com o ecossistema de todas as regiões do mundo, não podemos somente falar da evolução da espécie leão, da espécie gnu ou da espécie grama, mas do nosso planeta como um todo. A evolução é a evolução do organismo planeta Terra. E nós, seres humanos, sendo parte integrante deste mundo, também fazemos parte deste processo evolutivo, contínuo e interrupto. Além disto temos que ver que nem todas as relações na natureza são do tipo presa/predador, já que boa parte delas são harmoniosas e cooperativas.

Mas hoje em dia não podemos mais tratar da evolução da espécie humana tendo somente como base fatores biológicos/genéticos/ambientais, mas – principalmente! – a questão cultural. No conceito darwinista da evolução – que eu acredito como mais próximo da realidade, se aplicado um “patch” que transcenda suas limitações, como já dito – um indivíduo com alguma má formação física nunca “propagará seus” genes, mas como me explicam, por exemplo, que pessoas como o grande cientista Stephen Hawking – que conheço a história, já li alguns livros e admiro muito! -, que sofre de uma doença degenerativa que o fez “caminhar” para um estado de quase vegetação viver?  Não estou dizendo que ele não mereça viver, mas que se analisarmos a evolução humana como tendo somente os primeiros fatores, não conseguiremos analisá-la em sua totalidade.

Como disse Carl Sagan em algum livro que não lembro muito bem – Os Dragões do Éden -, o homem atual é o mesmo homem de milhares de anos atrás, mas com um “software” mais novo; o software mudou muito, mas o hardware continua praticamente o mesmo! Mas não, não enxerguemos o homem como uma máquina. Foi uma metáfora, entendam!

Por isso desconfio – e rio muito! – quando leio em revistas que a tendência é que daqui há milhares ou milhões de anos o homem terá uma cabeça maior para suportar um cérebro maior. Caramba, isso se durarmos estes milhares de anos e se realmente for necessário ter um cérebro maior, visto como agimos e pensamos. Pelos padrões de beleza que temos visto durante a história humana, não acredito que um dia as mulheres acharão homens cabeçudos atraentes.. rs

Mas voltando à visão de Capra…

Aplicando a visão sistêmica num escopo maior, só analisando o organismo – o indivíduo, a população, o planeta – e sua relação com o meio é possível o compreendermos.

A aplicação do conceito que a maioria tem da evolução em outros meios, como por exemplo no mercado de trabalho ou em nossa vida cotidiana, que chamamos de darwinismo social. Não é necessário nos aprofundarmos muito para ver o que isto leva: se só os fortes sobrevivem, você deve ser sempre o melhor, o mais forte, o mais ágil, o mais inteligente para não perecer na selva humana. Não deve ter piedade pelo próximo, a felicidade se encontra somente no sucesso. O que importa é o SEU sucesso, que é a sua evolução.

O que isto tem a ver com aquilo que eu disse dos jovens de hoje? O equivalente na selva humana a “ser extinto” é fracassar. E fracassar significa “não ser o primeiro”.

Este comportamento competitivo visa a “evolução” do indivíduo, mas é extremamente prejudicial ao ambiente, composto pelo próprio indivíduo, os outros indivíduos e o resto do sistema.

Não é visível que o velho darwinismo social não nos serve mais?

Numa visão da evolução como sendo a evolução do sistema como um todo a extrema competição e necessidade de ser o mais rápido, o melhor, o mais bonito, o mais “pegador”, o mais (…) é extremamente prejudicial, pois põe em risco o ambiente e o próprio indivíduo.

Uma nova abordagem da idéia de evolução como algo natural, contínuo e que engloba não só o indivíduo mas o ambiente não seria de maneira alguma anticientífica – pelo contrário, já que está mais próxima à realidade que presenciamos diariamente – e ainda sim seria benéfica se aplicada em outros aspectos, como da sociedade humana, do mercado, etc., por incentivar o desenvolvimento mútuo, o incentivo à colaboração ao invés da competição.

Voltando à questão da visão mecanicista precisar de Deus (escrevo com maiúsculo ou minúsculo?), porque afirmo isto? Pela necessidade que alguns tem de achar um “arquiteto” para o mundo.

Na minha conversa com o tal do professor, ele soltou uma que me fez pensar: “O próprio ateísmo é contraditório, contra a razão, pois nega Deus mas se esquecem que o mundo teve que ser feito por alguém num dado momento, e este alguém só pode ser Deus”. Foi algo assim, mas mais elaborado :-)

Não vou mentir, sou uma pessoa de fracos argumentos, já que sinto que bons argumentos existem para quem precisa provar algo. Eu não preciso, pois tenho minhas próprias convicções, mas vamos adiante.

Nossa necessidade de um arquiteto vem da visão estreita que temos do mundo, tanto espacialmente quanto temporalmente – existe esta palavra?. Temos uma dificuldade enorme quando falamos no muito grande, muito distante – a meia-vida de materiais radioativos é de somente algumas dezenas de milhares de anos; não é muito, só muitas vezes mais do que o tempo da própria civilização humana -, por isso tendemos a só enxergar o breve, o perto.

Num mundo breve não há tempo para evolução “passo-a-passo”. Um arquiteto pega algo em estado de matéria-bruta e transforma no produto final.  Isto demora um, dia, ou mesmo seis (mais um para descansar!). Há uma dualidade entre o existir e o não existir. Ou existe ou não existe. Ou é inorgânico e morto ou é orgânico e vivo.

Estes dias vi num site sobre como é impossível que um complexo sistema como o bico de um pica-pau pudesse ter sido criado “do nada”.  Segundo o site, aquilo só poderia ter sido criado por um ente consciênte, um arquiteto muito meticuloso.

Não nego. Não consigo ver coisas complexas assim – nem qualquer outra coisa! – surgindo do nada. Se pensarmos num intervalo de tempo curto – um dia, uma semana, seis mil anos, doze mil anos – não é possível mesmo que qualquer criatura existisse senão por obra de um “criador”.

Um arquiteto projeta, constrói – na verdade quem constrói é o peão-de-obra, mas deixa pra lá :-) -, com base em princípios definidos, cálculos matemáticos, etc. Constrói coisas artificiais, estáticas, já que já são “prontas”. A idéia criacionista é inversa à idéia de evolução! Mas que coisa besta, isto não é nenhuma novidade!

A questão é a relação entre o criacionismo e a visão cartesiana do mundo. Dois dos caras que iniciaram o pensamento reducionista – Newton e Descartes – viveram antes de Darwin (se não me engano Darwin é do século XIX e os dois primeiros do XVIII). Por isso não tinham idéia da evolução, já que a principal teoria da época era a criacionista católica. Assim, seu pensamento racional foi moldado segundo as idéias criacionistas, dos seres vivos e o mundo como máquinas, projetadas por um ente superior! E porque hoje, em nossa sociedade que já superou a idéia criacionista continuamos com o mesmo pensamento “racional”  original? Ao meu ver há algo errado.

Talvez eu seja muito fácil de convencer. Você vem com um papo mole e eu já “tô dentro”.

Não estou indo contra o pensamento racional, mas tentando achar uma maneira de superar suas limitações.

Ser racional não é não ter princípios éticos, pois é conhecido que os “racionalistas” quase sempre procuram não entrar em questões éticas. Acredito que o pensamento racional deva incluir sim princípios éticos e morais em seu desenvolvimento. Se o desenvolvimento de uma tecnologia for prejudicar o meio-ambiente ou alguém, o cientista deve pensar duas vezes antes de desenvolver a tecnologia.

Não é questão de ser bom ou mau, trata-se de usar a “racionalidade” e verificar as conseqüências das nossas ações. Não é aquilo de “eu só desenvolvo, quem vai usar é que se preocupe com ética”. Talvez seja por isto que hoje o desenvolvimento de novas tecnologias se dê quase sempre por razões comerciais ou militares. Isto é ser racional?

Como exemplo pense num cientista que trabalha numa empresa que desenvolve armas. Sua função é desenvolver um projétil que consiga atravessar duas paredes e ainda sim atravessar o crânio de um adulto humano. Viajei na coisa, mas percebe-se aqui que não há a intenção do uso pacífico da invenção. O cientista então diria: “Eu só desenvolvo. Quem usar o que eu inventar é que decidirá o que fazer. Eu me isento da responsabilidade”. Não é assim.

Estes dias num ônibus estava conversando com minha irmã sobre estas coisas estúpidas como tamagoshi, e ela soltou uma “mas quem inventa estas idiotices que você não gosta são vocês mesmo da informática”. Ela estava certa! Somos nós, os “caras da informática” que criamos estas besteiras, quase sempre à serviço do mercado.

Um dia destes estava conversando com o Jayme, o cara que faz a manutenção física dos computadores e demais equipamentos do departamento de informática da UEM, sobre coisas na área da informática que “têm futuro”, e ele citou o desenvolvimento de programas para celular, estes sistemas de SMS do tipo “envie um torpeido para o número XXXXX e receba uma mensagem psicografada do Chico Xavier”. Depois de alguma discussão ele disse que “quem manda no mundo é o dinheiro” e eu discordei dele, ainda dizendo que não conseguiria passar “o resto de minha vida” trabalhando com algo estúpido – dá dinheiro, mas é estúpido – que não acrescentasse nada ao mundo. Ele então diz “um dia você descobre como o mundo funciona”.

Quem sabe um dia eu descubra mesmo. Espero não estar sóbrio neste dia.

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Não nego que a religião, mesmo a cristã – qual a diferença dela e o catolicismo? – , tenha uma mensagem positiva, que é a idéia de amar o próximo. A questão é que o fato de este ser o lema desta religião não significa que não seja também das outras religiões. “Se o amor é o lema cristão, então não pode ser o lema de nenhuma outra religião”. Logo todas as outras religiões defendem o oposto ao amor, que é o ódio.

Pode ser comparado a eu dizer “Se quando eu soltar este balão com gás hélio dentro no ar livre ele irá para cima pois há ‘cordinhas’ invisíveis que anjos puxam para cima. Se o balão for para baixo, minha teoria estará errada, mas caso o balão suba a teoria estará certa”. É óbvio que não há estas cordas, no entanto o balão sobe!

Resumindo esta idéia, quero dizer que não ou pouco importa se você acredita ou não em deus, no diabo ou sei lá o que seja. O que importa são suas ações e sua maneira de enxergar o mundo.

Passei a acreditar que é possível ser uma boa pessoa sendo ateu, protestante, budista, hindu ou (…). A religião não justifica nenhum ato. Acredito que não existe o “tal povo destruiu o outro por causas religiosas”. A religião quase sempre é um “pretexto” para nossas ações.

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Por isso acredito que SEJA SIM possível ser uma pessoa boa, de valores, mesmo não acreditando em Deus. Eu hoje – na verdade nunca, mas deixa pra lá – não preciso de Deus para saber distinguir o “mal” – aquilo que tem conseqüências prejudiciais ao meio – do bom – aquilo que é benéfico ao meio. Não preciso de uma pedra onde está escrito o que eu posso ou não fazer: sou capaz de decidir por mim mesmo!

Não preciso que me digam “Não matarás, senão será jogado no inferno profundo”.

Na verdade acredito que seja até mais fácil você ter esta consciência num mundo sem religiões, pois é comum que as religiões afastem o homem da natureza, seu meio. Na católica isto é bastante visível por fatos como deus ter feito o mundo para o homem e o processo de “produção” deste ter sido diferente dos outros animais. Vá lá Adão, faça do mundo o que você quiser, meu filho :-) E fizemos. Destruímos, matamos. Bonito, diria até.

(…)

Muitos procuram invalidar argumentos dos outros em discussões baseados nas crenças destes. Por exemplo, no momento estou lendo um livro chamado “O Negócio é Ser Pequeno”, escrito no início da década de 70 pelo economista alemão E. F. Schumacher. O subtítulo do livro é “Um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”.

A idéia central do livro é propor um modelo econômico baseado nas pessoas e não no dinheiro. Não propõe o fim do capitalismo, mas o redirecionamento dos recursos visando o bem das pessoas, não o acúmulo de dinheiro.

Não vou entrar em detalhes sobre o livro, mas o citei aqui pelo fato de o autor demonstrar em seu livro ser uma pessoa bastante religiosa, citando muitas vezes versículos da bíblia e citar sempre referências à Deus na defesa dos recursos do nosso planeta.

A questão é: o fato de eu não ter a mesma religiosidade do autor me faz considerar suas idéias erradas e toda sua argumentação inválida? De maneira nenhuma!

Seu livro é muito lúcido sobre os problemas do mundo e sua argumentação é totalmente válida dentro do escopo econômico e social.

O fato de ele acreditar – bem, levando em conta o fato de ser algo de 40 anos atrás :-) – em Deus não o faz mau, nem o fato de eu não acreditar me faz bom – ou ao contrário, como queira. Concordamos quanto à idéia central do livro. A religiosidade é somente um detalhe.

Outro autor que já citei é o Capra. Nos dois livros dele que li percebi que ele foca muito a questão da espiritualidade, mas quase nunca cita referências à deus, muito menos do deus católico – talvez pelo fato de ele ser budista :-).  Este fato torna sua argumentação menos científica?

Ah sim, acredito que a espiritualidade seja algo essencial em qualquer pessoa. Não espiritualidade no sentido de religião, do algo além, do divino, mas da visão do ser vivo e consciente como algo “sagrado”. Depois explico o que quero dizer com sagrado.

Da mesma forma gosto muito dos livros de outro autor, um tal de Carl Sagan. Percebo que tanto Sagan quanto Capra quanto Schumacher falam da mesma coisa, mas os três não têm a mesma religiosidade (Sagan era ateu). Qual dos três está errado? Perceberam que não se trata de quem está certo ou não?

Por isto volto a afirmar novamente: o fato de você acreditar em deus ou não não determina suas ações ou sua visão de mundo.

Vejo que talvez que não tenha realmente desenvolvido esta mentalidade do nada. Acho que desde criança eu tenho a mania de ouvir “os dois lados” e passei a perceber que quase sempre não existe o “você está certo e você não”, pelo fato de idéias que queremos que sejam opostas não o são!

Aqui em casa mesmo, onde as brigas entre meu pai e minha irmã são freqüentes os dois no fim das contas acham ruim pelo fato de eu não ficar do lado de nenhum deles apoiando suas posições.  Acontece que ouço o que um tem a falar e percebo que não está totalmente errado, e ouço o que o outro tem a falar, e acontece o mesmo! No final eu acabo sendo o chato! :-) E percebi que os dois são bastante parecidos, talvez aí esteja o motivo das brigas…

(…)

Me pergunto também em como é possível viver num mundo onde existe tolerância religiosa quando a maioria das religiões nega e “verdade” das outras? Um ateu – estes ismos… – diria: “O negócio é acabar com todas as religiões!”.

Encaro um mundo sem religião como não muito diferente do atual. Haveria guerras, pobreza e tudo mais. Isto por ver que o ser ateu não deve ser objetivo de ninguém! O se tornar ou não ateu é mero detalhe quando o seu objetivo é ter uma visão mais clara do mundo. Para mim ao menos foi assim.

Você é uma pessoa esclarecida que percebeu que a religião hoje adquiriu um caráter de controle sobre as pessoas e conseguiu se livrar disto? Muito bom. Aplaudo. Mas a principal questão é: depois disto você se tornou uma pessoa melhor? Se tornou mais humano? Se não, já se perguntou que diferença fez então?

O que proponho é uma maior aproximação das ciências exatas com questões como a ética. Pois vejo as pessoas estudarem ciências e saírem do estudo – normalmente faculdade – a mesma merda que antes, com o mesmo pensamento mesquinho de antes! Estão numa faculdade para quando saírem ganharem muito dinheiro. Só isso. Não existe o caráter humano.

Que a ética seja mais abordada de forma que as pessoas tenham uma melhor noção de qual poderosa é a ciência, e que todo este poder deve ser usado única e exclusivamente para o bem da humanidade, e não com fins puramente comerciais – é o que mais existe hoje – e desumanos.

É aqui que acredito que devamos “importar” da religião o conceito de “sagrado”. Não sagrado no sentido de imaculado, criado por um ente superior, algo fora do nosso alcance, mas sagrado no sentido de especial, de único, de essencial para nossa – não só do homem, mas do mundo – existência.

Comportamentos opostos à esta idéia: por exemplo, estudar o corpo humano – hoje principalmente o cérebro – tratando este como “coisa”. “Descobriu-se que a o livre-arbítrio se encontra no setor fronte-esquerdo do cérebro. Logo, se atrofiarmos esta região poderemos fazer com que as pessoas sejam mais obedientes e sejam mais produtivas nas fábricas”. Viajei no exemplo, mas deu para perceber a idéia, não? Hoje boa parte da ciência é patrocinada por grandes corporações que têm quase sempre somente interesses econômicos. A ciência é boa se lhes der lucro, não importam as conseqüências disto.

Por isto me irritam os ateus que querem que forçar sua crença às pessoas crentes. “Deus não existe! Você deve perceber isto!”. Vejo que isto ilustra bem o que disse de que acreditar ou não não faça diferença, pois o que faz é a maneira como você age. Para mim você não pode forçar a pessoa a acreditar ou não em alguma coisa. Elas devem perceber primeiramente que tem o poder de questionamento. O que vem daí em diante é conseqüência.

Isso resume um sentimento que tenho em que a “verdade” não está na certeza, mas sim no questionamento. Pode parecer estranho num primeiro momento, mas deixei de ver a ciência como ferramenta da busca pela verdade absoluta do universo. Verdades são chatas. Quando chegamos à verdade não precisamos de mais nada. Entremos num mar de trevas intelectual.

Pense comigo: a ciência existe somente quando há o questionamento. O questionamento leva à pesquisa, que nos leva a um resultado. Este resultado, por sua vez, nos leva a mais um questionamento, que leva a pesquisa, e assim por diante. Á cada “passo” aumentamos nossa percepção sobre a realidade do universo. Acredito que nunca chegaremos à descrição 100% real do universo, e isto para mim não deve ser visto como algo que desanime. A função da ciência ao meu ver não é chegar à resposta fundamental do universo – 42! – mas sim desenvolver e descobrir novos meios, técnicas e maneiras de melhorar a vida do homem e fazê-lo entrar em harmonia com o mundo. Se descobríssemos a verdade única do universo não precisaríamos mais de ciência. Aí seria chato, muito chato…

Bem, fiz muitas perguntas neste texto e acredito que não tenha respondido todas. Não há problema.

Gostaria de me desculpar por este texto ter ficado extenso demais, mas simplesmente não consegui uma maneira de resumi-lo sem que necessitasse remover alguma parte importante. Há muito mais que eu gostaria de escrever, mas o texto já está muito extenso e dificilmente alguém chegará até aqui… hauahuaha

Por isto eu coloquei este texto como sendo “parte 1”, já que pretendo continuá-lo posteriormente. Enquanto isto me desejem sorte que eu vou é para Floripa! Aliás, sorte não. Só façam seus cálculos e torçam para que as borboletas do mundo todo parem de bater as asas enquanto eu estiver lá :-)

Se você quiser saber que textos ou blogs que de certa forma influenciaram a escrita deste post, lá vai a lista:

Megalopolis – Divagações da Fabiane Lima
Ateu graças a Deus
Ateísmo Genocida, do Sognare Lucido
Ceticismo.net
Falta de Respeito, do Thadeu Penna

Obs:

  • bg é um comando em computadores Unix onde “jogamos” um processo para “plano-de-fundo”. Ele continua lá, mas nós não temos contato diretamente com ele.
  • fg é o comando contrário. Pega um processo em background e o coloca em foreground.
  • patch é uma “melhoria” que aplicamos à um programa. Se você tem um programa, melhorá-lo e quiser distribuir esta melhora, não precisa distribuir o programa todo, mas somente o patch. Assim, quem já tiver o programa não melhorado e quiser melhorá-lo só precisa do patch :-)

Termino este post com uma citação do livro Contato, de Carl Sagan:

“Afinal, os budistas acreditam ou não em Deus?”, perguntou
Ellie enquanto se dirigiam ao local onde iriam jantar com o abade.
“Ao que parece”, respondeu Vaygay, secamente, “eles julgam
que o Deus deles é tão grande que nem precisa existir.”
Contato – Carl Sagan

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15 Comments

  1. Patola
    Posted dezembro 22, 2008 at 9:17 | Permalink

    Desculpa, mas sua noção de evolução está errada.
    – Evolução não significa progresso. Nem necessariamente aumento de complexidade.
    – Evolução não é uma escala linear (“Scala Naturae”), é uma árvore e todas as espécies contemporâneas têm exatamente o mesmo tempo de evolução.
    – Evolução nunca ocorre em indivíduos. Apenas em populações — mesmo porque não teria sentido: evolução necessariamente envolve nascimentos e mortes.

    Comparar evolução com coisas como aprimoramento individual, adaptação a uma atividade ou outras rotinas do cotidiano é uma coisa que as pessoas fazem constantemente – mas está errado. A maioria das pessoas ainda tem um pensamento oitocentista, pra não dizer lamarckista, de o que é esse processo.

    Existem outras coisas que me deixam incomodado. Ok, algumas pessoas têm uma visão “mecanicista” do mundo, ou seja, que ele é regido por regras inflexíveis. Isso é ruim? Por quê? O que há de moralmente repreensível ou filosoficamente condenável em uma visão mecanicista? E isso faz dessa visão uma visão errada?

    Descartes não é de todo mecanicista, pois a “alma” que criou na sua dualidade corpo e alma não tem nada de mecânica. E essa mesma dualidade já foi flagrantemente descartada já na década de 90 por neurologistas como António Damásio (ver “O Erro de Descartes”, entre outros).

    A mim me parece que o seu post carrega consigo vários equívocos científicos e filosóficos sobre o que é ser ateu, o que representa a cosmogonia de um ateu e como isso se insere na sociedade. Não vou comentar muito mais do que isso, mas acho que você deveria pesquisar mais sobre o assunto.

  2. Patola
    Posted dezembro 22, 2008 at 10:56 | Permalink

    Ah, e claro… O “Darwinismo Social”, essa doutrina do início do século XIX que envergonha a comunidade científica por ter sido sequer cogitada, nunca nos “serviu” para nada de bom. Não é científica, é baseada na Falácia Naturalista e é, de todo modo, uma tolice tremenda, que não devia carregar o nome de Darwin.

  3. Patola
    Posted dezembro 23, 2008 at 20:44 | Permalink

    E esse artigo é relevante para o tema em questão: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=18992

  4. Posted janeiro 4, 2009 at 18:47 | Permalink

    Olá Patola. Me desculpe por demorar a responder e obrigado por suas respostas, que demonstram que você é uma pessoa bastante esclarecida.

    Não vou mentir. Lendo agora meu texto percebi que há muita coisa confusa e que há uma boa chance de eu não ter conseguido exprimir o que pretendia. Mas vou tentar fazer um “resumo”:

    Não sou contra a chamada visão mecânica do mundo e da vida. O mundo e os seres vivos até demonstram algumas características que nos permitem em algumas ocasiões enxergar uma espécie de “programação”, típico de máquinas, como o código genético e tudo mais.

    O que sou contra é quando enxergamos somente a parte mecânica do ser, descartando todo o resto. É isto que boa parte das pessoas que se dizem racionais fazem. Deixar de ver o mundo como um “grande” relógio somente me permitiu ampliar muito minha percepção das coisas e teve influência enorme em vários aspectos de minha vida.

    Com relação ao “darwinismo social”, não poderia negar as semelhanças que há num ecossistema natural com o “ecossistema social humano”, dentre outros o fato de ser um ambiente determinado e determinador pelas/das interações entre os indivíduos que o compõe e o próprio ambiente. E “ambos os dois” estão em constantes mudanças, mudanças que compreendem também os indivíduos. Há também na sociedade humana uma evolução, tanto do indivíduo (quis expressar isto, mas pareceu que disse que na natureza há a evolução biológica do indivíduo, quando não há, mas a “evolução não biológica” dos indivíduos influencia muito a evolução da espécie, das espécies e do ambiente), quando na sociedade como um todo (evolução social, econômica, tecnológica, etc).
    Atualmente estou lendo o livro “O Método II” do sociólogo Edgar Morin, em que o autor consegue associar vários aspectos do conceito da evolução – fugindo do puro darwinismo – e como esta interage com a evolução humana, tanto como ser biológico como quanto ser social. Muito interessante o livro. Recomendo muito a leitura.

    Quanto à questão dos conceitos errados do ateísmo, quis dizer isto mesmo! Eu – nem você, nem ninguém – poderia ser definido por uma só palavra – um “ismo”. Acredito que sejamos muito mais complexos que isto, e passei a “juntar” aspectos de vários “ismos” para formar o que sou hoje, mesmo que estes aspectos pareçam opostos “este ismo é oposto à este”.

    Digo isso pela visão que muitos têm de que o fato de uma pessoas “não ter deus” faz dela uma pessoa má, ambiciosa, materialista, desumana. Para mim significou justamente o contrário!

    Inicialmente tentei “generalizar” pensando que o fato de uma pessoa ser atéia – como queira chamar – faz dela uma pessoa mais humana e melhor, mas aí percebi ser uma idéia tão falha quanto a anterior. Logo, percebi que o fato de você acreditar ou não num(s) deus(es) não determina a maneira como você pensa e vê o mundo. E foi esta a motivação deste meu texto.

    Ufa, espero que compreenda, e obrigado pelos comentários que você faz, sempre construtivos, mesmo que não exatamente concordando comigo :-)

  5. Posted janeiro 4, 2009 at 19:03 | Permalink

    Ah, e é claro, Patola: não podemos ver “verdade” nenhuma da ciência como absoluta, já que a própria ciência não vive de verdade, mas de teorias: a teoria aceita como “verdadeira” é aquela que se adapta melhor à noção de realidade que temos. Assim posso considerar um processo evolutivo na ciência também, onde uma teoria é utilizada como base para a teoria seguinte, e assim sucessivamente. Mesmo quando ocorre uma mudança brusca numa determinada área – como na física – não ocorre o “descarte” – do verbo descartar :-) – da teoria anterior, ao contrário do que muitas pessoas pensam, que uma teoria é verdadeira e sempre será. Se não for deve ser jogada fora. Não é assim.

    Aliás, uma das coisas que aprendi nestes dias é que, no mundo real, não existe o “jogar fora”. Tanto em se tratando de coisas imensuráveis (como idéias, teorias) quando em relação à coisas mensuráveis (a idéia de “jogar fora” alguma coisa nos trás o alívio por acharmos que a tal coisa “some” e que com ela toda a responsabilidade sobre ela).

    Mas é melhor parar de ser chato por aqui :-)

  6. Patola
    Posted janeiro 5, 2009 at 13:29 | Permalink

    Oi, Leandro. Bom, continuando a nossa conversa, continuo insistindo em que ter uma versão mecanicista não tem nada de condenável. Você disse: “O que sou contra é quando enxergamos somente a parte mecânica do ser, descartando todo o resto.” — isso continua condenando a visão mecânica, achando que ela não é abrangente o suficiente pra explicar as coisas. eu te pergunto: o que é esse “todo o resto”? Você pode defini-lo, conceituá-lo, exemplificá-lo?

    Com relação ao “darwinismo social”, não poderia negar as semelhanças que há num ecossistema natural com o “ecossistema social humano”, dentre outros o fato de ser um ambiente determinado e determinador pelas/das interações entre os indivíduos que o compõe e o próprio ambiente.

    Não sei o que seria o tal ecossistema social humano e essa equivalência com ecossistemas naturais (que inclusivem abrangem a espécie humana como quaisquer outras espécies). Acho que há uma confusão aí, Darwinismo Social é uma filosofia bem definida do início do século XIX que dizia que deveríamos facilitar que os “fortes” prosperassem e dirigir menos recursos para a sobrevivência dos “fracos”.

    Evolução não é uma receita de vida. Não é um “tem que ser assim”. Evolução é uma ciência, uma descrição da realidade, e dados seus mecanismos injustos, selvagens, amorais, eu nunca aceitaria evolução como uma prescrição. Acho que é nisso que seu conceito está falhando: confusão de descrição (“é assim”) com prescrição (“tem que ser assim”).

    Há também na sociedade humana uma evolução, tanto do indivíduo (quis expressar isto, mas pareceu que disse que na natureza há a evolução biológica do indivíduo, quando não há, mas a “evolução não biológica” dos indivíduos influencia muito a evolução da espécie, das espécies e do ambiente), quando na sociedade como um todo (evolução social, econômica, tecnológica, etc).

    Estou ciente que há a prática do termo “evolução” como sinônimo de progresso, mas eu nunca o uso com esse sentido e dado que surgiu a partir de apropriações indébitas e distorcidas da teoria científica, também não respeito esse uso.

    Quando eu quero dizer progresso, eu digo apenas progresso. Nunca evolução, que é apenas mudança.
    Quando eu quero dizer evolução – mudança nas freqüências dos alelos de uma população de acordo com o tempo – eu digo evolução.
    Quando eu quero dizer mudança, eu poderia dizer evolução pois é a mesma coisa, mas prefiro dizer “mudança” mesmo para não confundir com o significado biológico.

    Assim, continuo insistindo, é um equívoco filosófico terrível confundir ou relacionar “progresso pessoal” com qualquer coisa da evolução. Equívoco esse que os criacionistas chatos são doidos pra achar e aproveitar em qualquer ataque que façam à ciência.

    Atualmente estou lendo o livro “O Método II” do sociólogo Edgar Morin, em que o autor consegue associar vários aspectos do conceito da evolução – fugindo do puro darwinismo – e como esta interage com a evolução humana, tanto como ser biológico como quanto ser social. Muito interessante o livro. Recomendo muito a leitura.

    O que é o tal “puro darwinismo”? Ainda me parece que você está confundindo conceitos de forma bastante equivocada. Não conheço o livro, mas a parte do “sociólogo” já me deu arrepios: você está ciente da assim chamada “guerra das culturas”, e que os cientistas sociais, especialmente os sociólogos, são os mais incompetentes atualmente pra entender os conceitos e implicações da evolução? Já faz uns 10 anos que eu tenho lido muitas obras sobre esses assuntos e o melhor texto que já li sobre isso é um capítulo de um livro – se quiser te envio – intitulado “Why Social Scientists Fail to Darwinize” (é do livro “A Natural History of Rape”, excelente obra).

    Existem MUITOS equívocos filosóficos disseminados pelos sociólogos sobre a evolução. Eu nunca confiaria neles pra aprender sobre o assunto. Quando muito, eles usam conceitos distorcidos do início do século XIX (e.g. “sobrevivência do mais forte”, “bem da espécie”) que inclusive já foram definitivamente refutados.

    Ah, e é claro, Patola: não podemos ver “verdade” nenhuma da ciência como absoluta, já que a própria ciência não vive de verdade…

    Também conheço esse papo epistemológico que sempre vem de brinde quando há a discussão de evolução com cientistas sociais. Eu costumo responder falando da Farsa de Sokal. O fato é: não são os cientistas que dizem que a ciência é a verdade absoluta. Mas o Método Científico é a melhor aproximação da Verdade que temos, e querer, como querem alguns cientistas sociais, que a ciência, com seu Método, seja considerada algo tão arbitrário quanto disciplinas sem método como pseudociências e religiões é simplesmente absurdo. A Navalha de Occam pega essa proposição e corta em pedacinhos tão pequenos que mal dá pra vê-los.

  7. Patola
    Posted janeiro 5, 2009 at 13:44 | Permalink

    OBS.: “Sobrevivência do mais forte” foi refutado em algum momento da primeira metade do século XX, mas achar refutações contemporâneas é a coisa mais fácil do mundo (por exemplo, o excelente livro “sobrevivência do mais doente” faz isso muito bem). “Bem da espécie” (junto com a “Seleção de Grupo, versão simples”) foi refutada pelo biólogo George Williams em 1956.

  8. Patola
    Posted janeiro 5, 2009 at 13:56 | Permalink

    Darwinismo Social é uma filosofia bem definida do início do século XIX

    Correção, início do século XX.

  9. Patola
    Posted janeiro 5, 2009 at 14:37 | Permalink

    Opa, relendo agora, vi que tem uma parte que eu esqueci de comentar:

    Digo isso pela visão que muitos têm de que o fato de uma pessoas “não ter deus” faz dela uma pessoa má, ambiciosa, materialista, desumana. Para mim significou justamente o contrário!

    “Materialista” tem dois significados distintos: (1) a pessoa que não acredita em algo além da matéria (e energia), ou seja, que não acredita em coisas sobrenaturais e (2) a pessoa apegada demais aos bens materiais. É bom especificar bem o que você está usando, que suponho seja o sentido (2)!

    Quase todo ateu é do tipo (1). No entanto, de novo, caímos na semântica e suas conseqüências: justamente por causa do significado (2) o contexto (1) também fica parecendo algo negativo.

  10. Posted janeiro 8, 2009 at 1:51 | Permalink

    Olá Novamente, Patola.
    Por mais engraçado que pareça, lhe agradeço por todos os seus conselhos e acredito que eles me servirão – e servem – de incentivo para que eu estude mais.

    Vendo o que você escreveu percebi que tenho mesmo que rever mesmo boa parte do meu pensamento.

    Acho que em algum lugar – acho que no link “aviso aos navegantes” – deixo claro que não escrevo nada aqui com o intuito de ser científico, já que, como dito, este é um blog “diarinho” :-)

    Você deixou claro no outro comentário que é mestrando de biologia molecular e genética, e te admiro por isso. Não sou da área biológica – na verdade sou da área de tecnologia – , mas nos últimos anos passei a me interessar pela dimensão filosófica das ciências, e concordo com você que eu deva estudar melhor a própria ciência antes de tudo :-) Também não sou filósofo, e nem estudei filosofia, mas acredito que a filosofia e a ciência podem andar lado a lado, sem que vivam em conflito. Ou talvez este conflito só exista na minha cabeça… :-)

    Sou um humilde estudante de informática – sem qualquer formação acadêmica, mas que gosta muito de escrever sobre “qualquer coisa” – que só quer ver o mundo de uma maneira mais clara, mais humana e mais solidária. E aceito que esta mudança venha acompanhada sempre de erros, erros que espero superar com ajuda de comentários como os seus – bem como depois de algumas mal-sucedidas aplicações na vida real. Tenho uma irmã que estuda psicologia, e às vezes acabo pegando alguns de seus livros para ler (o que me leva às vezes a pegar as informações de forma fragmentada, confesso). Percebi que também em outras área da ciência – tá, não concordo muito que psicologia seja uma ciência – predomina uma certa visão determinista, por exemplo, na psicanálise o indivíduo é determinado por fatores genéticos, vivência na infância, etc, enquanto que no behaviorismo o indivíduo é determinado somente pelo meio. Ou alguma coisa assim :-)

    Acontece que passei a ver algumas implicações da visão puramente reducionista em outras área que não a ciência – acho que não dá para negar que a visão científica acompanha a própria cultura do homem -, principalmente no contexto social. Tomo isto por vivência própria, sempre.

    Quanto ao método científico, certamente preciso estudá-lo melhor. Muitos dos assuntos do qual tenho me interessado dizem respeito à própria essência do método, e de como ele pode ser adaptado à realidade atual. Principalmente tendo como conseqüência a visão ecológica. Não, não sou ecologista, embora esteja “ecologizando” minha visão de mundo.

    O que critico – talvez como um papagaio, repetindo sem pensar muito – é a essência dominadora do pensamento científico difundido, da ciência como “arma” de dominação do homem sobre a natureza (e sobre o próprio homem), como se o homem fosse um ser à parte da natureza e não parte dela. Para mim – novamente como um papagaio – a ciência deve ser uma ferramenta para facilitar a convivência do homem consigo mesmo – num âmbito social – quanto com o resto da natureza. Talvez isto fuja do método, mas procuro deixar claro sempre quando escrevo que meus textos são totalmente subjetivos, não tentando, de maneira nenhuma, serem científicos. Mas isto não justifica falar merda, não? :-)

    Procurarei ler os livros que você recomendou e ler os links que me mandou. Acredito que tenha os aconselhado de forma construtiva.

    Me desculpe por não ter respondido seus comentários antes, mas estava ocupado com outras coisas e não tive exatamente tempo para acessar o blog (posto os textos pelo scribefire, que não exige que eu acesse o site).

    Mais uma vez obrigado pelos comentários construtivos, e espero um dia escrever um texto que seja aprovado por um mestrando de biologia molecular e genética :-)

  11. Patola
    Posted janeiro 10, 2009 at 22:05 | Permalink

    Mais uma vez obrigado pelos comentários construtivos, e espero um dia escrever um texto que seja aprovado por um mestrando de biologia molecular e genética :-)

    Sou tão interessado quanto você, e foi isso que fez que, depois de 6 anos fora da universidade, já com carreira garantida em computação, eu teimasse em fazer mestrado numa área que não me “dizia respeito” – eu me formei em engenharia de computação. Sei que não é grande coisa ser um “mestrando”, mas para mim foi uma grande conquista e minha dissertação está praticamente pronta para ser defendida — e vou querer continuar na área com o doutorado.

    E tudo isso, toda essa vontade de aprender biologia apareceu depois que eu li o livro “O Gene Egoísta” em 2001. Desde então, só de recreação eu já li mais de 50 livros de biologia desde essa data. Se tem um livro que explica maravilhosamente bem a evolução, é ele, e já foi dito que seria o livro que Darwin teria escrito se estivesse vivendo no nosso tempo.

  12. Patola
    Posted janeiro 11, 2009 at 3:42 | Permalink

    Muito de minha incursão em biologia é pra conseguir entender argumentos complicados como esses: http://pandasthumb.org/archives/2009/01/god-of-the-gapsin-your-own-knowledge-luskin-behe-blood-clotting.html

  13. Patola
    Posted janeiro 12, 2009 at 23:55 | Permalink

    hello?

  14. Posted janeiro 13, 2009 at 11:31 | Permalink

    Caramba, este post já tem cheiro de mofo! hauahauha
    Calma Patola. Os grilos já fazem cri cri cri :-)

    Ando meio sem tempo para atualizar o Blog, mas em breve prometo textos melhores. Até lá :-)

  15. fernando nunes ferreira
    Posted março 1, 2009 at 21:30 | Permalink

    Desculpem meus limites.A muitos anos escuto que “é converçando que se entende”. É claro que não. Jamais nos entenderemos em absoluto.Não sou fanático mas os efeitos da Torre de Babel ainda percistem.Uma das afirmações disto é que o homem de hoje diz que “faz amor”, como se o amor não nascesse com a gente, dando amor ou recebendo. A vida do planeta e da humanidade é exatamente tudo o que negamos,o equilibrio.A evolução sem base ética e moral, não pode ser chamada de evolução. Queiramos ou não, somos, apesar de toda a vã filosofia,apesar do nosso verníz intelectual, os animais predadores mais irracionais da natureza,e a Terra, o hospício e a lixeira do universo.

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