Eu, o tempo e aquela sujeirinha no canto da sala

Atenção: Este post é um delírio meu. Se tiver estômago fraco ou mais de dois neurônios, não leia

Não sei.
Por mais clichê que isto seja, eu nunca fui muito fã do tempo.
Não tempo no sentido de clima. Tempo no sentido de tempo. Esta coisa que passa todos os dias, mas que ninguém sabe exatamente o que é. Poderia utilizar aquela definição física, do processo que caminha para a entropia e tal, mas não resolveria nada.
Li estes uma crônica do João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo (27/maio) que falava mais ou menos sobre isto: se o tempo andasse ao contrário, lembraríamos do futuro?
Acredito que não.

O Gustavo, filho da vizinha, que agora não pára de me encher o saco estes dias me disse que um dia inventaria um controle remoto capaz de parar o tempo. Não sei se ele teve esta idéia sozinho, ou assistiu o filme Click, ou algo do tipo.

Eu então disse à ele que não resolveria nada. Me perguntou porquê, e eu retruquei: “Mas o que é o tempo?” Pergunta difícil demais, confesso, já que nem eu sei responder. Tento novamente. “Como você sabe que o tempo passou? Como sabe que há um minuto atrás você estava lá atrás e agora está aqui?”, já que estávamos voltando de uma eletrônica, onde o cara disse que não seria possível consertar o vídeo-cassete, e vai ver o moleque me disse aquilo por estar com o controle do aparelho.

“Você só sabe que o tempo passou pois há uma lembrança na sua cabeça que lhe diz que que antes de agora você esteve lá atrás. Se não houvesse o tempo, não haveria em sua cabeça esta noção antes-depois, por não haver um registro do antes, não havendo como você saber se o tempo passou ou não. Mas você pode inventar um controle que faça o tempo parar à sua volta, menos em você.” Sinceramente espero não ter acabado com os sonhos dele ;-)

Mas mesmo assim seria improvável. Se ele um dia inventasse uma maneira de o tempo parar à sua volta, menos nele, seria como se o mundo deixasse de existir, já que toda a percepção que temos do mundo é fruto de alguma energia que captamos. Por exemplo, não enxergaríamos, já que só enxergamos porque nossos olhos captam a luz ao redor. A luz, como sabemos, tem velocidade finita, por maior que seja. E velocidade é algo que depende to tempo. Se não existe tempo, não existe velocidade. Ela simplesmente não existiria. Com os outros sentidos ocorreria o mesmo. Não ouviríamos, não cheiraríamos, já que todos dependem do deslocamento de alguma coisa (ar, gás, luz, etc.).

Acredito que só sejamos capazes de perceber o tempo por esta noção de antes-depois. Nosso cérebro diz: “isto aconteceu antes disto, que aconteceu antes daquilo, que aconteceu…”. Talvez seja por isto que às vezes confundimos coisas que aconteceram ontem ou há um mês atrás. Nos confundimos muito fácil.

Talvez numa tentativa de não ter que confiar somente em nossa massa cinzenta, procuramos na natureza coisas que parecem acontecer de forma rítmica e contínua para nos dizer quanto tempo se passou entre um evento ou outro, já que dificilmente a natureza tem problemas de memória como nós ;-) Se não me engano (ou a wikipedia), hoje o tempo de um segundo é considerado como a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133 (wikipedia). Ou seja, algo bem específico, já que no passado os relógios não funcionavam muito bem, e chegar agora ou daqui há uma hora era a mesma coisa… hauahau

Mas voltando à questão: Se o tempo “rodasse” para trás”, lembraríamos do futuro?

Acredito que não. Pois como disse, só lembramos do passado pois este está gravado em nossa mente. Nosso cérebro é algo físico, estando, portanto, sujeito aos mesmos processos que qualquer outra coisa material. As ligações entre nossos neurônios – se você for neurologista, não leia isto – depende de eletricidade, algo que depende do tempo. Um tempo rodando ao contrário significaria ligações sendo desfeitas – ou o processo contrário de fazer, sei lá. Para saber que o tempo passou, é necessário haver um “registro” “isto aconteceu antes”. Se não existe este “registro”, não existiu o antes, implicando em nós não podermos percebê-lo. Não há como perceber um registro que ainda não existe.

Da mesma forma, se o tempo parasse, inclusive em nós, não perceberíamos, já que no exato momento as ligações em nossos cérebros “cessariam”.

Assim, não é possível determinar se o tempo está ou não “rodando ao contrário”. Pode até ser que esteja, e nós nem percebamos.

Mas e se conseguíssemos parar o tempo, poderíamos parar na mesma hora? Não!

Como o tempo é algo contínuo, não existe “mesmo momento”. Pense em algo contínuo como os números reais. Não existe um ponto ao lado do outro, já que entre dois pontos existem infinitos outros pontos. Um ponto também não tem posição exata. Sua localização é somente uma aproximação. Você poderia me dizer: “Mas enquanto à números como 1, 2, 3?”. Veja que inclusive a notação de números reais é normalmente feita da forma “1,0000; 2,0000”, o que significa que pode ser 1,00001 e 2,00001, dependendo da sua capacidade de aproximação. Mas não há como dizer que 1,0000 e 1,0000 são a mesma coisa. Entre pontos nestas posições podem existir infinitos outros.

E como o tempo não é algo discreto – tipo um, dois, três, quatro -, não haveria como duas “máquinas de parar o tempo” pararem na mesma hora, pois uma pararia no momento 2,0000001 e outra no momento 2,0000002, por exemplo.

E o Hiro nunca conseguiria fazer nada do que faz, como por exemplo andar. Caminhar, como sabemos, envolve deslocamento. Deslocamento num espaço em relação à um tempo. Não existindo tempo, não haveria o deslocamento. Não haveria como também caminhar por não haver gravidade, que também depende do tempo.

Mas acabo de ler na Wikipedia que alguém já deu nome à este negócio de antes-depois. Chama-se causalidade. Mas isto não impede que eu tenha meus delírios ;-)

(…)

Como disse acima, nunca fui muito fã do tempo. De certa forma sempre vi o tempo como meu inimigo. Mais um clichê.
“O tempo é a força que faz com que coisas boas que nos aconteceram ficarem cada vez mais distantes, e as que vão acontecer parecerem que nunca chegarão”.

Talvez por nunca ter sido muito bom na organização do tempo. Isto às vezes me irrita, e já me prejudicou muito. Passo a maior parte do tempo tentando decidir o que fazer com o próprio tempo. E quanto mais coisas tenho para fazer num dado período de tempo, menos faço, pois assim que começo a fazer uma, fico pensando no tempo que estou perdendo quando deveria estar fazendo a outra. Quando começo a fazer a outra, fico pensando em outra, e assim vai… E já perdi muita coisa por causa disse. O que? Não sei. Não tive tempo de perceber.

Seguindo a velha tradição, muitas vezes me deparo pensando se valeu a pena ter gastado o tempo se utilizei bem o tempo que tive até agora. Aí percebo que só nisto já perdi um bom deste tempo. O mehor é mesmo não pensar.

Percebi que passei a maior parte do tempo pensando no que fazer no tempo que virá. Quando percebo, o tempo já passou. Meus amigos me diziam que eu penso demais. Só percebi o que diziam quando já haviam ido embora. Foda.

O mais engraçado é que sempre dizem: “Mas você tem todo o tempo do mundo”. No que se baseia isto? Um dia você tem todo tempo do mundo, e no mesmo instante percebe q este “todo tempo do mundo” diminuiu a ponto se se tornar aquele tempo em que você tem que fazer tudo que não fez, sem pensar. É agir. Mas perde-se tempo demais pensando nisso.

Há um tempo atrás, talvez uns 4 anos, quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, disse que compraria uma agenda para anotar tudo que fosse fazer, para não mais esquecer. O problema é que até hoje eu esqueço de fazer isto. Nunca na minha vida fiz planos, cronogramas. Nem para hoje, para o mês, para o ano, para a vida.

Nunca colei post-its amarelinhos no armário. Nunca guardei coisas que me lembrassem de lugares onde já estive, pessoas que conheci. Alguns acham chato eu não ter ao menos uma foto de amigos do passado; fotos da escola, de parentes, ou sei lá o que.

Não sei. Nunca tive apego à isto. Talvez venha daí a minha “fobia” à fotos. Elas fazem lembrar do passado, das coisas boas que já aconteceram. Mas muitas vezes lembrá-las dá uma sensação estranha. Talvez uma sensação de algo que nunca deveria ter acabado. Uma sensação de aquilo nunca mais voltará. Uma certa nostalgia, sei lá.

Olhar numa foto e ver você mesmo há dez, quinze anos é engraçado. A gente fica esperando crescer, mas quando isto acontece, nem percebemos.

Olho agora em minha volta e não tenho nenhum registro da minha infância. Quebrei todos meus brinquedos antes de terminar a oitava série – meus pais me chamavam de “destruidor” :-). Nem há quadros pendurados em meu quarto. Cartazes, posteres inexistem. Existe o presente, que talvez seja mais que suficiente.

Oh não! Me tornei um personagem de novela das oito!

(…)

Lembram-se da última chuva de granizo, que fez o maior estrago nesta região do Paraná? Pois é. Estes dias, subindo no telhado da casa, achamos cinco furúnculos nas telhas. E olha que são destas telhas  eternit de amianto, grossas. Tanto que permitem que você ande tranqüilamente sobre elas, mesmo eu, que nos últimos seis meses engordei três quilos. É complicado quando ultrapassamos a barreira dos setenta ;-)

(…)

Sabe qual a melhor maneira de aprender alguma coisa? É errando. Isto é fato. E muitas vezes acertar em uma tarefa implica em errar no que se queria no final.
Lá vai minha história: Estava tendo uns problemas com uma partição de um dos HDs da minha máquina. É um HD pior que outro: um de 40GB (velho) e outro de 80GB (mais novo, mas extremamente barulhento). Junte isso ao fato de eu já conhecer – muito superficialmente – o extremamente perigoso utilitário badblocks (parte do pacote e2fsprogs). Executando este utilitário na partição em questão, verifiquei que havia alguns badblocks nela.
Como brasileiro não lê manual nem nada, decidi verificar o que dizia o manual do comando. Fui lá e executei um badblocks -w, que, em meu entendimento, escreveria somente nos setores defeituosos do disco. Mas, rolando um pouco a página do comando, li o seguinte:

WARNING
Never use the -w option on a device containing an existing file system.
This option erases data! If you want to do write-mode testing on an
existing file system, use the -n option instead. It is slower, but it
will preserve your data.

Ou seja: a opção -w zera literalmente a partição, sobrescrevendo todos os dados. Né brinquedo não, viu? Como já havia executado o comando, não havia mais como recuperar a partição.

Ainda bem que havia feito backup das informações importante, talvez já pressentindo a cagada :-)

Outra besteira que cometi foi ter inventado de limpar o meu computador. Mas limpar fisicamente, já que havia lugares que nunca foram limpos nos últimos quatro anos.

Abro e tiro tudo. Sai HDs, sai gravador de DVD, sai leitor de DVD, sai memória, sai processador… Nunca havia visto tanta poeira assim.
Como a fonte estava fazendo muito barulho – ainda faz, mas o som pára com umas pancadas – tiro e desmonto ela também, para retirar o pó que havia.

Só não tiro a placa-mãe daquela chapa de ferro por que os parafusos dela são muito complicados de tirar. Ao menos do meu PC.

Tudo limpo, hora de colocar tudo de volta.

Tudo colocado, só faltando o processador. O cooler dele tem uma presilha de ferro que necessita de uma chave-de-fenda para prender. Como não tinha uma ao meu alcance, fui tentar usar uma philips. Péssima idéia. Quando forço um pouco, a chave escorrega e vai direto para a placa-mãe. “Ops, fiz caca”, pensamos quando crianças. Quando crescemos percebemos que isto já não resolve.

Na pior das hipóteses, o micro não ligaria. E não ligava mesmo. Começo então tudo novamente. Depois de algum esforço ligou.

Mas aí veio o problema: por alguma razão, talvez relacionada à trilha que rompi na placa-mãe, o meu segundo HD, conectado como master da segunda IDE, parou de funcionar com DMA (UDMA, sei lá). Isto não causa nenhum erro de leitura ou escrita, mas o deixa extremamente lento. Extremamente nem tanto, já que ele já é bem lento, mas com 2/3 da velocidade normal, para efeitos de comparação.

Isto causa erros quando eu faço o computador voltar de um suspend – conhecido como Hibernar no Windows. Algumas vezes o sistema retorna. Noutras ocorre um belíssimo kernel panic :-)

(…)

Renato: Eu sou a lembrança do terror. De uma revolução de merda. De generais e de um exército de merdas.
Minha mãe: De merda, ele disse?
Eu: Poético, não?

(…)

Não sei se disse, mas eu tenho uma outra irmã, do casamento anterior do meu pai. A gente chama de “meia-irmã”, mas acho que isto não existe. Ou é, ou não é.
Pois é. Havia uns 10 anos que eu não a via. Quase desde que nos mudamos de São Paulo para Maringá, já que ela já veio uma vez para cá.
É estranho como o tempo passa. (bleeh)
Meu pai e ela e estavam precisando conversar. Acho que um guarda mágoas do outro, mesmo não admitindo. Acabaram não tendo conversa alguma. Quem sabe daqui há dez anos.

Observação de uma criança: “Porque quando eles estão lá no seu quarto – vendo as fotos que tiraram num parque da cidade – você vem para a sala; e quando eles vem para a sala, você vai para o quarto?”. Não sei.

Isto aconteceu já há umas duas semanas, no último feriado prolongado.

(…)

Achou que é hora de dar um tempo. Quanto não sei. Talvez volte amanhã.

Seja como for, até a próxima.

(texto escrito há mais de uma semana, mas só agora publicado, mas isto provavelmente não te interessa)

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3 Comments

  1. foobob
    Posted junho 18, 2008 at 1:19 | Permalink

    Muchas gracias, muchacho. Texto legal.

    Mas gosto mais das explicações pseudo-simples e de dar nó na cabeça do Douglas Adams. Aqui vai uma pérola de sabedoria:

    “O tempo é uma ilusão e a hora do almoço uma ilusão maior ainda.” — Ford Prefect em O Guia do Mochileiro das Galáxias

    Veja como a aparente simplicidade e o bom humor escondem uma verdade realmente tão pungente! Era um pusta autor!

  2. Posted julho 29, 2008 at 4:35 | Permalink

    haha.. o problema de parar o tempo é o mesmo da invisibilidade. já pensou que as implicações de uma pessoa invisível seriam impossíveis?

  3. Posted fevereiro 20, 2009 at 20:27 | Permalink

    :-)

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