O que a Internet tem de bom para seu filho

E o Gustavo, filho da vizinha, sempre me pede “Leandro, você tá ocupado agora? Depois eu posso colocar umas fotos no orkut?”. Eu já disse que não gosto do orkut, mas acredito que não há problemas em ele mexer no orkut de vez enquando.

Então fui estender roupa com minha mãe, enquanto deixei ele mexendo no computador. E toda hora lá vinha ele: “Leandro, sou se escreve com ‘éle’ ou com ‘ú’?”. “Como que se escreve tô? É ‘tê’, ‘ô’, ‘ú’?”. Não, na verdade a palavra tô não existe, ela é só uma gíria. o certo é ‘estou’. Mas como a gente tá acostumado a falar, você pode escrever, e se escreve assim: ‘tê’, ‘ô’ com um chapéuzinho em cima – e ‘rabisquei’ com o dedo na parede. “Ah tá”.

Vira e mexe ele me chamava por acontecer alguma coisa engraçada no navegador. Ora o botão avançar não aparecia, ora não conseguia escrever uma palavra, etc. Eu, que de orkut não sei nem o nome, ia lá ajudar ele, principalmente por – estranhamente – o orkut dele estar em inglês. “Não, não. Tenta digitar com as duas mãos. Quando a letra que você procura estiver deste lado do teclado, você aperta a com a mão direita”.

Eis que volto para ver o que ele está fazendo. Assistindo vídeos no orkut. Até aí nada muito ruim. Ele gosta bastante de rap, e acho que era um vídeo do 50 cent, ou algo assim. Sem problemas.

Um tempo depois volto e vejo ele assistindo um clip da ‘dança do créu’. Ele até sabe a letra. Então em close no vídeo aparece a enorme bunda daquela que atende pelo nome de “Mulher Melancia”. E Subia. E descia. E subia e descia, numa velocidade cada vez maior. Mas nunca saía do foco da câmera. E o garoto assistia aquilo com os olhos brilhando, cantando a música junto com o vídeo.

“Gustavo, outra hora você mexe no computador. Vai lá almoçar.” Pergunto à ele se realmente gosta daquele tipo de música. E ele diz que sim. Eu pergunto o porquê e ele diz “Porque todo mundo ouve, ué”. Eu até penso em tentar aquela de “Mas não é porque todo mundo gosta que você deve gostar. Se todo mundo pular de uma ponte…”, mas não, pois a tevê já transformou isto em clichê.

“Mas porque você odeia tanto esse tipo de música, hein?”, ele me pergunta, já que sabia que eu não ia muito com a cara de funk. “Ué”, eu não soube explicar na hora, ou não sabia como explicar. A questão no momento não era eu, mas ele.

O problema de ele estar asssistindo aquele vídeo era meu? Afinal, fui eu que deixei ele usar o computador. Era? Não sei. Talvez outro agravante seja o fato de ele ter achado o clipe no orkut de sua irmã, de 14 anos. Ou o fato de ser este tipo de música que ele ouve todos os dias na casa do vizinho da frente. Ou na escola, já que todos seus colegas cantam este tipo de música. E sua idade? 10 anos.

Mas qual o problema, afinal? Que tipo de música ele deveria ouvir? Rock? Música da Xuxa? Esta certamente é tão alienadora quando funk. Sinto que não poderia dizer a ele que tipo de música ouvir, pois estaria dizendo que o que ouço é melhor do que o que ele ouve – mesmo eu achando, não posso simplesmente impor minha opinião como verdade. Sim, mesmo sabendo se tratar de uma criança, em pleno desenvolvimento mental, etc.

Afinal, o que eu tenho contra o funk? Eu poderia fazer uma citação ao João Gordo, da MTV, que uma vez disse “funk faz sucesso no Brasil porque representa aquilo que o pobre sempre pode ter de graça, que é o sexo”. Poderia sim, mas isto não é razão. E não me venha com aquele papo freudiano de sexualidade infantil, ok? Não é que eu esteja sendo retrógrado, mas não acho que funk deva ser ouvido por uma criança – nem por alguém com mais de dois neurônios. Não é pela temática sexual – na idade dele eu ouvia mamonas assassinas – mas pela forma como este tema é colocado na cabeça das crianças.

E o que eu poderia dizer? Afinal, o que a Internet tem de bom hoje? Posso dizer que, com os milhões de sites que a Internet tem, acesso freqüentemente nem meia-dúzia deles. Às vezes acho que a Internet realmente é como um grande oceano, mas que nos sentimos seguros somente em poucos locais da costa.

Mas porque é que estou me preocupando com isto? O filho é da vizinha, ué. Ela que se preocupe com a educação do moleque, não é mesmo? Talvez o problema maior é que eu ainda tenho um pingo de esperança no futuro de nossas crianças. Mas confesso que está cada vez mais difícil.

ps: o mais engraçado é que a primeira vez que ouvi a dança do créu, foi no site charges.com.br, e a versão da música que lembro é justamente esta ;-)

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4 Comments

  1. Gustavo Lopes de Oliveira Santos
    Posted abril 22, 2008 at 1:49 | Permalink

    Aplausos!

  2. Posted abril 22, 2008 at 14:14 | Permalink

    Tema polêmico para um blog de tecnologia, hein…
    Felizmente, a não ser quando alguns veranistas com carros cheios de homens aparecem por aqui com o som no máximo, não tenho o mínimo contato com Funk, e já aboli a televisão da minha vida a um bom tempo.
    Quanto a internet, acho que o que temos na web é tão amplo como o que temos no mundo real. Cabe a cada um escolher o que quer ver e o que não quer…
    E quanto as crianças, acho que basta os pais sugerirem o que é certo e errado, o que é bom ou ruim… Mas ao invés disso, por vezes vejo pais e outros adultos achando graça de crianças cantando e gesticulando coisas obscenas que sequer entendem.
    É uma pena, mas o povo brasileiro é assim… pelo menos a maioria.

  3. Posted abril 22, 2008 at 14:18 | Permalink

    …acho que posso exibir uma lista extensa do “que a internet tem de bom para seu filho”, e posso listar pelo menos o dobro do contrário. Mas isso não se resume a internet, dá pra fazer o mesmo sobre qualquer meio de comunicação, mídia, ou até pessoas.

  4. Posted setembro 7, 2008 at 2:57 | Permalink

    o brasil é um pais sem cultura fase o que terra conhecida la fora por a terra do carnaval futebol e samba isso nao contribui a nada com o desenvolvimento do nosso pais algumas crianças ainda tem contato com um computador enquanto outras tem contato com o crime,trafico e armas o que a criança faz e o que o pais tem para ensinar a elas cabe a nos fazer a diferença no nosso meio urbano dando carinho afeto e educaçao que a criança necessita para um desenpenho valoroso lembra do nosso velho ditado as crianças sao o futuro do brasil

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