Banal

Ontem.

Vou ao médico. Particular, ainda para ver a questão da minha mão.

Na sala de espera. Havia bastante gente, dentre eles uma senhora.

Esta senhora sai por um instante. De repente volta gritando e xingando todo mundo. Haviam a assaltado assim que ela saiu para ir no orelhão fazer uma ligação. Um moleque de bicicleta passou e arrancou sua bolsa. E isto à pouco menos de cinco metros da entrada do hospital.

E ela entra xingando todo mundo. Principalmente os médicos.

“Seus filhos da puta!”. “Você é uma vaca, aí sentada sem fazer nada”. Ao que parece houve uma certa “burocracia” quando ela pediu para utilizar o telefone do lugar para telefonar.

E xingava a todos. Xingava o governo, pela falta de segurança. Xingava os enfermeiros. E a atendente.

Mas parece que ninguém dava muita atenção à ela. Um médico tentava falar com ela, mas ela gritava muito. O médico dava uma certa risadinha, o que a deixava mais nervosa ainda.

As pessoas simplesmente olhavam aquilo, sem saber o que fazer. Alguns até sabiam, e viam aquilo como uma atração de circo. E isso deixava a senhora cada vez mais nervosa. Tanta gente ali, e ninguém para ajudá-la?

Eu? Bem… Eu ouvia minha música. O que podia fazer? Então saio para verificar minha moto. Sem problemas. Lá fora, tudo normal. Aliás, normal mesmo, já que fica ao lado de um cemitério e, pela janela, só se vêem os túmulos.

Entro e pergunto a minha mãe se ela sabia se a mulher já havia feito queixa na polícia, e ela disse que não sabia. E foi lá perguntar. A senhora disse que sim, mas que enrolaram demais para ela poder utilizar o telefone. E continuava xingando. Inclusive o povo que estava esperando, que ria quando ela xingava.

Eu? Continuava indiferente, ouvindo minha música e observando o comportamento das pessoas.

A senhora desce para o andar de baixo. Volta e começa a bater num quadro que fica na escadaria. Aí sim o pessoal do hospital presta mais atenção nela.

E o povo se vira, se esguia tentando ver o que a senhoa faz. E sempre rindo do espetáculo. “Olha lá, ela tá quebrando tudo”.

Já estava de saco cheio. Mais de uma hora esperando a consulta.

Minha vez.

Entro na sala, converso com o doutor e explico a situação.

Ele diz que é caso de cirurgia, e que o sistema público não faz este tipo de procedimento.

Faz a seguinte analogia com a minha mão: “Imagine que mão é um HD. O que esta cirurgia faz é o mesmo que abrir o HD para consertar um defeito. Mas quando um HD dá defeito, a gente não conserta; só joga fora e compra um novo”.

Nesta hora percebi que precisava de um upgrade…

A cirurgia é um tanto delicada e a recuperação levará um bom tempo. Algo como seis meses, com a fisioterapia e tudo.

E isto rima com o que? Sim. Dinheiro. Muito alto o custo da cirurgia.

Ele recomenda a melhor cirurgiã de mão da cidade, e já adianta que ficará bem caro, na faixa dos dois mil reais.

Mesmo assim ainda haverá seqüelas. Disse que minha mão provavelmente não funcionará como antes, e eu não conseguirei fazer coisas como fechá-la totalmente.

Percebo que ele fica incomodado com a minha calma. À toda hora teta me explicar da gravidade da situação, mas não mudo minha fisionomia. Tenho me mantido frio assim pro um bom tempo. Evita o desespero.

Me explica que quanto antes fazer a cirurgia, menores as seqüelas. Que o correto era fazê-la poucas horas após o acidente. E foi isto que fui fazer no Hospital Municipal, logo quando aconteceu a cagada. Mas a média não viu como apenas um corte superficial, e costurou a pela como sendo este o caso. Sim. Falha médica. Quanto mais demora-se para fazer a cirurgia, maiores os riscos. E um mês é uma eternidade, portanto posso esquecer.

Processar a médica, o hospital? Acho que isso não resolveria nada; não teria meu dedo de volta. Não poderia colocar a culpa na médica ou no hospital, já que que admito a possibilidade do erro. Tanto que o acidente fui o meu principal erro.

O que fazer depois? Não tenho a mínima idéia.

(…)

E aconteceu noite passada um assassinato aqui perto. Hoje se manhã, minha mão me diz que o autor foi o Leandrinho, que mora aqui na rua.

Fico espantado? Não. Já sabia que assim acabaria.

Me lembro de uma vez, há uns nove anos atrás. Eu, com uns 11 ano. E o tal Leandrinho com 10. Passo no caixa. Aí vejo no outro caixa, quando a atendente de distrai, ele pegando uma barra de chocolate e colocando no bolso. Imediatamente já vi que futuro ele teria.

Quando criança, já havia brigado várias vezes com ele. Havia quando jogávamos bets na rua. E todos sabíamos seu futuro.

Há um tempo ele tinha um cavalo. Andava por todo canto com o cavalo. Aí teve um dia que o cavalo morreu, no meio da rua.

Ele havia andado dias com o animal, sem dar comida ou água. O cavalo estava quase que só esqueleto. Veio polícia e tudo.

Mas era só um animal.

Houve outra vez que ele “pegou rabeira” num caminhão – algo muito comum aqui – e o caminhão passou em cima de sua perna. Ficou um bom tempo para recuperar-se.

Não era difícil saber seu futuro. Se envolveu cedo com drogas. Já tinha várias passagens na polícia. Talvez por sua família ser bastante religiosa.

Eis que, provavelmente por questões referentes à drogas, ele entra num bar e leva uma menina até a rua. Dispara com dois revólveres. Foge e é achado na casa de um colega, também conhecido aqui no bairro.

Provavelmente vai pegar vários anos de prisão, tanto pelos antecedentes quanto pelo jeito que descreveu o crime, com frieza e sem remorso.

É incrível como cada um pode escolher o seu caminho. Uma pena. Embora nunca tenha gostado muito dele, não desejava tal situação.

(…)

Not�cia do Jornal

Sem fugir à regra, infelizmente, penso como pode a violência ter se tornado algo tão banal em nossas vidas. Tanto que não nos espantamos mais quando assistimos na TV mais um caso de assalto, assassinato e afins.

Atualizado: Clique na imagem para ver uma cópia (cópia da cópia) da notícia que saiu no jornal local.

Ao que parece o principal motivo dos crimes foram as drogas.

Fonte da notícia: Jornal O Diário do Norte do Paraná

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One Trackback

  1. […] que antes não era tão forte – a falta. Digo isso por sentir na pele a coisa, e ter visto pessoas da minha idade se perderem, ao se envolverem com drogas, tráfico e até coisas mais graves, como homicídios. Que bom motivo […]

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