A paciência de uma aranha

Então está decidido. Já tenho a receita e tudo.

Fazer sonhos. Um pouco de farinha aqui, fermento acolá. Não deve ser tão difícil.

Massa:

– 40g de fermento

– 1/2 quilo de Farinha de trigo

– Uma pitada de sal

– Duas colheres de açucar refinado

– Uma colher de margarina

– 3 ovos batidos

– 1/2 copo de leite.

A receita dizia para colocar o açucar e o fermento, e adicionar a farinha aos poucos. Eu, burro como sou, coloco quase toda a farinha de uma vez. Já sabia que daria em merda…

A massa era muito mole, mas na receita dizia que ela desgrudaria. Aliás, a receita não dizia nada. Eu fui fazendo meio que no chute. Como tinha a impressão de que o fermento era pouco, coloco mais 10g dele.

A massa desgruda, mas acho que coloquei farinha demais…

Coloca numa tigela, e deixa descançar. Até dobrar de tamanho. Enquanto isso, vou fazer o creme.

Jogo todos os ingredientes numa tigela, para misturar antes de jogar na panela, o que faria a maisena o amido de milho fazer pelotas.

Só as gemas dos ovos? E seis ainda? Como só tinha cinco em casa, por eu não ter ido no mercado, pedi mais dois ovos pra vizinha. “Mas dois pra quê?” . Eu sabia que ia sair sujeira dali. Dito e feito. Um dos ovos quebra facilmente, pela casca fina. Meleca no fogão.

Percebo que a massa já cresceu. Hora de retirar, amassar com o rolo numa espessura de 10cm.

“Pai, cadê o rolo?”

“Não sei, eu vi um por aí. Sua mãe deve ter colocado num armário destes”.

E quem disse que acho…

“Ah, usa uma garrafa”

E olha que não é má idéia. Uma garrafa de pinga, perfeita para o trabalho. Ah, e vazia ;-)

Corto os pedaços, como disse a receita com um copo. E coloco para crescer.

Volto ao creme. Empelotou no fundo da tigela.

Ao colocar na panela, passo ele por uma peneira. Assim, o risco de ficar pior do que está é pequeno.

Esquenta o creme. Nada de engrossar. E eu mexendo… Mexendo… Opa, engrossou! Tira do fogo.

Enquanto isso, alguns bolinhos cresciam, e outros não.

Espero mais um pouco. Não crescem. Droga! O jeito é fritar assim mesmo. Em gordura não muito quente. Mesmo assim eles ficaram um tanto “bronzeados”. Bem-passados, como queira.

Tiro da frigideira, e enrolo nesses papéis absorventes. Pelo menos sequinhos eles ficariam…

Frito quase todos. Uns eu coloco no forno, pra ver como ficaria. Outros eu coloco em cima da geladeira, na esperança de fritá-los no dia seguinte.

Tiro dos papéis, corto, coloco o creme, passo no açucar. Ainda estão quentes.

Espero esfriar um pouco.

E arrumar tudo. Cozinha, chão, pia. Como só estou eu e meu pai em casa, e eu que fiz a sujeira, nada mais justo, não e?

À estas horas, eu já estava enjoado com o cheiro da gordura. Não agüentava olhar para os sonhos, principalmente depois que comi um que estava meio engordurado dentro. Mas eu fiz tão certinho!

Percebo que a receita era um tanto desajustada. Mesmo tendo passado o recheio – de forma bem farta – nos sonhos, sobrou mais de dois terços do creme. Putz! Agora vou ter que rechear o pão do café da manhã com creme durante os próximos dias!

E nisso já é de tarde. O sol, de rachar. Percebo que esqueci alguns no forno. Pedras.

Me lembro que esqueci alguns em cima da geladeira. Azedaram. Droga!

E a música não me sai da cabeça. Desde de manhã. A Wolf At The Door, Radiohead, Hail to the Thief. Muito legal a música. Mas meio melancólica, como sempre.

Como um sonho. Não é lá um igual ao do São Franscisco, mas não estava tão ruim. Ruim sim, mas nem tanto.

(…)

A música não sai da cabeça.

(…)

Uma mosca. Uma teia-de-aranha. A aranha.

Uma mosca + uma teia = uma mosca presa = almoço para a aranha.

A mosca se debate. E eu paro para olhar. É bonito.

A mosca se debate. Pára, talvez se cansaço. A aranha avança. A mosca se debate e a aranha recua. A mosca pára e a aranha avança. Fica assim por minutos, horas. A mosca não desiste; a aranha tem paciência.

Me lembro de limpar melhor a casa.

(…)

Aff… Nada pra fazer. Dar uma volta, quem sabe.

Pego a moto. Sem gasolina. Passar no posto. Vinte reais no bolso. Meu tênis furado na lateral. Já uso ele quase diariamente faz seis anos. É sim! Seis anos! É quase parte do meu corpo. Mas pelo jeito já está na hora de eles se aposentar…

Centro da cidade: ruas quase vazias. Vamos ver o cinema. Vai ver tem um filme legal. Cinema lotado. Quarta-feira, dia onde o povo paga meia. Pra mim não faz diferença, já que tenho a “carteirinha de estudante”. Só filme chato. Achava que o “Eu sou a Lenda” já estaria em cartaz. Mas não. Eu achei legal o “resumo” que a Laura Storch fez em seu blog. Mas não estava em cartaz ainda… E só filme besta.

Começo a andar. Mas nenhum lugar realmente me prende. Tem sido assim nos últimos tempos. Anos?

Passo na Cacau Show e compro uns chocolates. Dois. R$ 0,70 cada um.

“Não quer levar três por dois reais?”

“É – digo, sem pensar -, compensa.”

Levo três. Mas, pensando bem, três normalmente sairiam R$ 2,10. Não saí no lucro tanto assim… Burro!

Continuo a andar. Andar com um capacete na mão é ruim, mas já me acostumei.

Andando por aí. Pessoas. Um gordo. Um magrelo. Uma alta, outra baixinha.

É engraçado como as pessoas não querem ficar sozinhas. Não faz parte da natureza. Acho que demorei muito pra perceber isso. Às vezes acho que ainda não percebi.

Nada aqui, nada ali. Que chato.

Caminho de volta pra casa. Caminho mais curto? Que nada. Vou dando voltas, entrando em ruas que nunca havia entrado. A cidade não está muito cheia. Engraçado.

Ah… Fome. Um cachorrão. Dona Bela? Não. Cheio demais. O lanche de lá é bom, mas estava realmente muito cheio.

Paro num aqui perto de casa, onde como “sempre”.

“Vai comer ou vai levar?”

Porque perguntam isso? Se eu for levar, é bem provável que uma hora vá comer, ué ;-)

“Vou comer aqui mesmo”.

E a música não saia da cabeça. Sorte que havia levado meu MP3-Player, e podia matar a vontade.

“Hum, hum, hum…”

“O seu tá pronto”

“Tem sodinha?” – esses refrigerantes de limão, numa garrafinha bem pequena.

“Não têm não. Tem no bar aí” – o bar ao lado – “Mas tem tubaína”

“E quanto tá?”

“Um real”

“Me vê uma”

(…)

“Tem uma mesa aí”

“Ah, peraí que já vai trazer”

A senhora traz a mesa.

“Obrigado”

“Espera um pouco que vou trazer a maionese”. Coloca o catchup, a mostarda e um molho apimentado na mesa e vai buscar a maionese.

Pena, pois eu gostei mesmo é do molho. Quase nem usei os outros.

A tubaína deu uns seis copinhos. Mas eu estava com fome e bebi tudo.

Volto pra casa.

Ainda com fome. Ainda têm uns sonhos. Hum… Até que não está tão ruim assim. Ficaram murchos e não muito bonitos, mas ainda sim comestíveis.

Nada na TV. Sono. Dormir. Sonhar. Mas não com os sonhos que fiz… ;-)

(…)Ah, se você quer a receita do sonho, pegue este link:

http://receitas.maisvoce.globo.com/Receitas/Paes_Salgadinhos/0,,REC19823-7780-61+SONHO,00.html

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